Perspectiva Biopsicossocial na Clínica Psicanalítica

O texto apresenta a perspectiva biopsicossocial aplicada à clínica psicanalítica, compreendendo o sujeito a partir da interação entre dimensões biológicas, psicológicas e sociais. Dialoga com Freud, Winnicott, Benghozi e Kaës, destacando ambiente, vínculos familiares e a transmissão transgeracional.
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Por Victor Hugo de O. Schoepping

            A compreensão do ser humano a partir da perspectiva biopsicossocial constitui um importante avanço epistemológico no campo das ciências da saúde e das ciências humanas. Esse modelo foi proposto por George Engel, em 1977, como uma crítica ao paradigma biomédico tradicional, que explicava os processos de saúde e adoecimento prioritariamente por fatores biológicos. Para Engel, a complexidade da experiência humana exige uma abordagem mais ampla, capaz de integrar aspectos biológicos, psicológicos e sociais na compreensão do indivíduo e de seu sofrimento.

            Segundo essa perspectiva, o ser humano pode ser compreendido como uma unidade complexa e integrada, cuja constituição resulta da interação dinâmica entre organismo, psiquismo e ambiente. A saúde e o adoecimento não decorrem exclusivamente de alterações orgânicas ou conflitos intrapsíquicos, mas da constante influência recíproca entre fatores corporais, emocionais, relacionais, culturais e históricos. Assim, o sujeito é corpo e mente, uma totalidade em permanente construção nas relações que estabelece consigo mesmo, com os outros e com o mundo.

            Sob essa ótica, os processos de saúde e adoecimento são compreendidos como fenômenos multifatoriais, pois desde a vida intrauterina, o ser humano se encontra inserido em uma rede de influências que atravessam sua constituição subjetiva. Os vínculos primários, as experiências afetivas precoces, as condições materiais de existência e os aspectos biológicos participam ativamente da formação da personalidade e da maneira pela qual o sujeito interpreta e responde às demandas da realidade.

            A perspectiva biopsicossocial propõe uma leitura ampliada do sujeito, reconhecendo que os fenômenos psíquicos se desenvolvem em permanente relação com o corpo e com o ambiente social. Nessa direção, a prática clínica precisa considerar os conflitos inconscientes, os fatores históricos, familiares, culturais e corporais que atravessam a experiência subjetiva.

            Nesse sentido, o modelo biopsicossocial pode ser incorporado ao setting analítico como uma lente complementar de compreensão do sujeito, porque embora a psicanálise tenha como foco central a investigação do inconsciente e dos processos psíquicos, a consideração dos aspectos biológicos e sociais permite uma leitura mais abrangente das condições que participam da constituição do sofrimento emocional. Aspectos como predisposições genéticas, funcionamento neurobiológico, condições de saúde, contexto cultural, relações interpessoais e condições socioeconômicas se tornam elementos relevantes para a compreensão da singularidade de cada analisando.

            A construção do ser biopsicossocial é influenciada por múltiplos fatores que atuam simultaneamente durante todo o processo de desenvolvimento. Nesse contexto, Winnicott destaca a importância fundamental do ambiente para a constituição emocional da pessoa, do sujeito. Em sua obra Os Processos Maturacionais e o Ambiente Facilitador, afirma:

“Uma infância saudável depende, pois, da existência de um ambiente que não só proporciona cuidados físicos, mas também promove a continuidade do ser e a confiabilidade humana, fundamentos essenciais para o amadurecimento emocional” (WINNICOTT, 1969, p. 306).

            A contribuição de Winnicott amplia a compreensão do ambiente para além de sua função material ou protetiva, pois o concebe como um espaço fundamental para o desenvolvimento da subjetividade. O ambiente facilitador oferece as condições necessárias para que a criança possa integrar suas experiências, desenvolver um senso de continuidade do ser e construir gradativamente sua identidade, assim o suporte emocional se torna tão indispensável quanto os cuidados físicos para o desenvolvimento saudável.

            Essa compreensão permite reconhecer que o sofrimento psíquico emerge de conflitos internos e também das condições relacionais e ambientais que cercam o sujeito ao longo de sua trajetória. A interpretação do contexto que molda a constituição subjetiva favorece uma abordagem terapêutica mais abrangente, capaz de compreender os sintomas como expressões de uma complexa rede de fatores biológicos, emocionais e sociais.

            As fundamentais contribuições de Freud em O Mal-Estar na Civilização (1930) nos permitem compreender a influência do contexto social na constituição subjetiva. Ao discutir os impasses da vida civilizada, Freud demonstra que a inserção do sujeito na cultura implica em renúncias pulsionais necessárias para a manutenção da ordem social. Tal processo produz inevitáveis conflitos entre os desejos individuais e as exigências coletivas, tornando o sofrimento uma condição inerente à existência humana. Dessa forma, a subjetividade é continuamente moldada pela interação entre os processos internos do psiquismo e as demandas provenientes do ambiente social, evidenciando a importância de uma leitura que integre as dimensões psicológica, biológica e sociocultural do desenvolvimento humano.

            A dimensão biológica se refere aos processos corporais e orgânicos que influenciam o funcionamento psíquico, incluindo predisposições genéticas, condições de saúde, fatores neurofisiológicos e aspectos do desenvolvimento físico. A dimensão psicológica engloba os processos emocionais, cognitivos e inconscientes que estruturam a experiência subjetiva, constituindo o principal campo de investigação da psicanálise.             Já a dimensão social contempla as relações familiares, os vínculos afetivos, os sistemas culturais, as condições econômicas e os contextos históricos que participam da construção da identidade e da saúde mental. Nesse cenário, o genograma se apresenta como um importante recurso de investigação clínica, possibilitando a visualização das relações familiares e dos processos transgeracionais que atravessam a vida do sujeito. Conforme Benghozi:

“O objetivo do genograma não é trazer uma descrição detalhada e completa da manutenção da casa familiar ou da árvore genealógica da criança, mas é a ocasião, pela evocação das fratrias, ascendentes, descendentes, a partir da recepção do paciente sintomático que vem para consultar, restituir seu advento, seu lugar na história individual, destacando as várias formas de relação na transmissão genealógica e na vida interrelacional” (BENGHOZI, 2006, p. 12).

            Mais do que um instrumento de levantamento genealógico, o genograma possibilita identificar padrões relacionais, repetições de comportamentos, legados emocionais e possíveis transmissões psíquicas inconscientes que atravessam gerações. Sua utilização favorece uma compreensão ampliada da história familiar e dos modos pelos quais determinados conflitos podem ser herdados, reproduzidos ou transformados ao longo do tempo. Essa perspectiva se aproxima das contribuições de Kaës acerca das alianças inconscientes e dos pactos transgeracionais. Segundo o autor:

“As alianças inconscientes enodam-se para que os sujeitos de um vínculo estejam assegurados de nada saber sobre seus próprios desejos, nem daqueles que os precederam. O conjunto assim ligado só obtém sua realidade psíquica a partir das alianças, dos contratos e dos pactos inconscientes que esses sujeitos concluem e que, por seu lugar no conjunto, obriga-os a manter” (KAËS, 2005, p. 133).

            A partir dessa compreensão, se torna possível reconhecer que o sujeito não se constitui isoladamente, mas dentro de uma trama intersubjetiva marcada por heranças simbólicas, identificações e vínculos que antecedem seu nascimento. O sofrimento psíquico pode, portanto, expressar conteúdos que ultrapassam a experiência individual, remetendo a conflitos, silêncios e pactos transmitidos ao longo das gerações.

            Dessa forma, a integração do modelo biopsicossocial à escuta psicanalítica amplia significativamente a compreensão do sujeito e de seu sofrimento. A utilização de instrumentos como o genograma favorece a investigação das relações entre corpo, psiquismo e contexto social, permitindo identificar fatores que participam da constituição da subjetividade. Tal abordagem possibilita uma leitura complexa e profunda da experiência humana, promovendo intervenções clínicas que consideram a singularidade do sujeito em sua totalidade biopsicossocial.

 

REFERÊNCIAS

BENGHOZI, Pierre. Malhagem, filiação e afiliação: psicanálise dos vínculos: casal, família, grupo, instituição e campo social. São Paulo: Vetor, 2006.

ENGEL, George L. The need for a new medical model: a challenge for biomedicine. Science, v. 196, n. 4286, p. 129-136, 1977.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Obra original publicada em 1930).

KAËS, René. Os espaços psíquicos comuns e partilhados: transmissão e negatividade. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.

WINNICOTT, Donald W. Os processos maturacionais e o ambiente facilitador: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983. (Obra original publicada em 1965).

 

 


Texto escrito por:

Victor Hugo de O. Schoepping. Psicanalista responsável pela VHOS Clínica Psicanalítica em Osasco/SP com atendimento presencial e on-line. Trilhando a graduação em Psicologia. Já trilhou a logística e comércio exterior. E teve experiências ao longo da vida acadêmica com a docência no ensino fundamental 01 e foi contador de histórias.

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Respostas de 2

  1. Texto muito pertinente. O sujeito na sua singularidade e suas questões sociais , biológicas e psíquicas . Um conjunto inseparável, que precisamos estar atentos na clínica.
    Parabéns Hugo.

  2. Excelente texto. A reflexão faz uma bom convite à nossa prática clínica. Obrigada pela partilha, pelo empenho com o Projeto Arte e Psicanálise da EPC.

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