Por Andréia Walter
Priscila Lourenço
Valéria Maria de Oliveira
Victor Hugo de O. Schoepping
Escrever é um ato de criação, um desafio de nos depararmos com as palavras de autores (as que lemos, as que escutamos, as que estudamos, as que vemos), com as nossas palavras, com nosso pensamento, com o pensamento que circula, com aquilo que estamos refletindo acerca de um tema e, organizar uma forma de compartilhar com vocês leitores nossas an(danças) em forma de ensaio. Agora imaginem o desafio em escrever esse ensaio a quatro mãos?! Mas cá estamos, nos desafiamos! Somos desassossegados, ousados e aceitamos desafios porque gostamos de fazer coisas juntos, de pensar juntos, de fazer rede, fazer laço. Assim nos amparamos e nos fortalecemos aqui, ali e acolá. Esperamos que vocês desfrutem da leitura e também se encorajem à escrita e a participar das ações do Projeto Arte e Psicanálise.
Pois bem! Iniciamos afirmando que Arte e Psicanálise se cruzam como dois modos distintos, mas igualmente potentes em tocar aquilo que não se vê, não se diz e não se domina, pois a arte fala sempre onde a palavra tropeça, já a psicanálise podemos dizer que escuta onde o sujeito não percebe que fala. Assim, entendemos que por trás de toda criação artística, há um inconsciente em ação, e é nesse ponto que ambas se encontram como linguagens atravessadas por desejos, conflitos e criação, assim se vai construindo modos que geram um tecido, uma trama sólida e profícua.
Desde Freud, sabemos que somos movidos por impulsos, fantasias, lembranças e forças inconscientes que retornam sob formas simbólicas, o artista para Freud, é alguém que transforma seus dramas internos em obras oferecidas ao mundo, dizia ele: “aonde a psicanálise chegou, um artista já havia estado ali”, desta forma, Freud reconhece na arte uma via privilegiada para a expressão do reprimido. Nesse contexto ainda, Dostoiévski, Leonardo da Vinci, o poeta e o ator são, para Freud, exemplos desse trabalho inconsciente convertido em forma estética, a culpa que atravessa, por exemplo, Dostoiévski vira motor narrativo, o enigma materno de Leonardo se sublima em pesquisa, invenção e beleza, o ator e o poeta mobilizam fantasias que circulam do íntimo ao público, portanto é possível percebermos que a arte é tocada pelo mal-estar, pois ela o transforma e o reorganiza simbolicamente em cada época.
Lacan, por sua vez, desloca o olhar para a linguagem e para o surrealismo, aproximando a arte do funcionamento do inconsciente, enquanto Freud via a obra como sublimação, Lacan percebe na arte uma encenação do inconsciente, assim as metáforas, falhas, jogos de palavras, fragmentações e associações livres abrem brechas no sentido, permitindo que o real irrompa. A obra, como o sintoma, é enigmática, sempre diz onde não diz e, assim como na clínica, se trata menos de interpretar e mais de escutar. Tanto na clínica frente nosso analisando, como frente a uma obra artística, vamos nos atentar (analisando e analista) ao que ressoa em nós diante dessa imagem? Que parte de nós ela convoca?
Essa relação entre o estético e o inconsciente também aparece quando pensamos a catarse, esse conceito que atravessa arte e psicanálise desde os gregos até Freud, vejam que a catarse acompanha a Psicanálise, mas acompanha a linguagem teatral desde muito antes de a Psicanálise surgir. Aristóteles via no teatro trágico uma liberação emocional que reorganiza os afetos do espectador, assim, Freud ao inaugurar a psicanálise, encontra na catarse um mecanismo clínico inicial que deixar vir à tona emoções recalcadas para aliviar o sofrimento, mas com o tempo ele percebe que a descarga não basta, surge então a regra da livre associação. Ainda assim, algo da catarse permanece que é aquele instante em que uma música, uma cena ou uma fala analítica toca um ponto vivo do inconsciente. É possível afirmarmos que emoção guardada demais vira sintoma, e tanto a arte quanto a clínica, oferecem passagem para o que sufoca cada um de nossos analisantes.
Assim podemos perceber que a clínica psicanalítica e a arte compartilham um mesmo solo, pois ambas trabalham com o que se oculta sob as formas, com o que não se articula de imediato por isso a metáfora ocupa lugar central nas duas ações, afinal nenhuma obra diz somente o que parece dizer, assim como o discurso do analisante jamais é literal. A escuta do analista é como a de quem contempla uma obra em processo, por meio de gestos, pausas, lapsos e restos. Sendo assim, a transferência pode dançar como composição improvisada, com o silêncio, o sofrimento para ganhar contorno e a interpretação ir se deslocando. No consultório, é quase como se ensaiássemos o indizível e o analisando, quase “artista”, se reescrevesse sessão após sessão e assim nunca é o mesmo.
A arte, nesse sentido, funciona como uma “clínica pública” que expõe subjetividades, algumas feridas e tensionamentos de modo sensível e, a clínica por sua vez, não promete cura, mas constrói aberturas, brechas para sustentar o sujeito para que ele encontre sua narrativa fragmentada e seu próprio ritmo. Ambas são práticas que respeitam o tempo interno e criam espaço para que algo se transforme, se desloque e se se torne dizível.
Tanto na arte quanto na clínica pulsa um mesmo excesso, a pulsão, como diz Freud, não encontra objeto definitivo e insiste em buscar satisfação, quando desviada, sublimada ou reorganizada, se torna criação. A obra de arte é uma formação de compromisso entre pulsão e simbolização porque dá forma ao que a linguagem ordinária não comporta, o analista, na escuta, acolhe essa força que passa pelo discurso do sujeito e sustenta sua transformação.
Na perspectiva freudiana ainda, a relação entre arte e vida pulsional é uma articulação entre tensão e desejo e os limites impostos pela realidade, quando as demandas pulsionais confrontam as instâncias psíquicas, elas podem ser submetidas ao recalque, mecanismo que afasta representações inconciliáveis da consciência, entretanto, esse material frequentemente retorna na forma de sintoma. Contudo, o recalque e a sublimação não se equivalem porque enquanto o primeiro reprime e fragmenta, a sublimação atribui um destino plástico à pulsão, redirecionando sua finalidade para produções social e culturalmente valorizadas, como é o caso da criação artística.
O artista atua de maneira semelhante à criança que brinca, construindo um universo particular para canalizar suas fantasias, a distinção essencial está em sua habilidade de levar o imaginar íntimo, como seus próprios conteúdos reprimidos, sem o fardo da culpa ou o risco de transbordar em angústia. Essa é uma forma de operar como um dispositivo de borda e elaboração, pois confere borda ao irremediável da pulsão, transformando a dor, o trauma e o desejo em linguagem criativa e compartilhada. Ao transformar o conflito singular em valor universal, o artista viabiliza uma ponte entre a solidão da fantasia e o laço social. E isso é muito importante para a saúde de todo sujeito.
Assim, a arte não suprime o conflito estrutural da condição humana, mas o converte em linguagem e contorna o caráter irremediável da pulsão, essa articulação assume contornos decisivos na clínica contemporânea, que está marcada pela predominância de patologias do excesso, pelo desamparo e por manifestações do sofrimento que antecedem o recalque clássico, como as somatizações, os atos impulsivos e a sensação de vazio.
Assim nossa reflexão aponta para o seguinte: a neurose clássica nos convida a decifrar a metáfora do sintoma, já a prática atual exige, muitas vezes, o trabalho primordial de construção de sentido e de sustentação. Nesse contexto, a sublimação e a arte podem orientar o manejo clínico, pois o objetivo é oferecer suporte para que o sujeito converta o excesso pulsional desorganizador em representação, inventando respostas singulares diante do seu mal-estar. Isso só se torna possível mediante uma escuta analítica sustentada em um ambiente acolhedor e isento de julgamentos.
Esse movimento todo ressoa também quando pensamos o mal-estar, e ampliamos nossa reflexão seja no mal estar na estética de Rancière, seja na civilização de Freud. Para Freud, o mal-estar nasce do conflito entre desejo e repressão, condição inevitável da vida em sociedade. Para Rancière, a arte moderna vive outro tipo de inquietação que é o choque entre formas de sentir, ver e dizer, que deslocam hierarquias e produzem novos modos de existência. Na clínica e na arte, o mal-estar é uma potência que abre espaço para criação, para deslocamento e para invenção de mundos, o artista e o analista sustentam esse desconforto para fazer surgir algo novo.
Podemos também apontar também para outro olhar atento ao passado da história da arte quando nos deparamos com o movimento Expressionista, por exemplo, (que teve origem na Alemanha entre 1904 e 1905), sobre o qual Graça Proença considerou como um estilo que “procurou expressar as emoções humanas e interpretar as angústias que caracterizaram psicologicamente o homem do início do século XX.”. Considerando que a arte é uma forma de linguagem e comunicação, esses artistas procuraram nos revelar os seus sentimentos, nos mostrar seu “mundo interior”. Segundo Jung, uma palavra ou imagem adquire caráter simbólico quando ultrapassa seu significado explícito e imediato, remetendo a conteúdos que pertencem ao inconsciente.
Voltamos então para a clínica psicanalítica, onde por vezes, encontramos analisandos que no seu processo de elaboração recorrem a elementos artísticos para expressar suas emoções. Aquilo que julga não conseguir elaborar pode vir por meio de identificação com algum elemento da arte como uma música, poesia, filme, entre outros, a poesia é recorrente nesses termos. E por meio deste processo o psicanalista escuta o inconsciente do analisando e o ajuda a compreender seus conteúdos.
O artista e o psicanalista questionam os sentidos e significados já estabelecidos, criando brechas nas formas rígidas que estruturam nossa compreensão do mundo e de nossos sintomas, possibilitando o surgimento de novos sentidos, interpretações e imagens.
São nesses diversos pontos que estruturamos nesta escrita compartilhada que arte, cultura e clínica se entrelaçam, pois a psicanálise nunca foi neutra em relação ao mundo, ela sempre nasce atravessada por história, política, arte e linguagem. Cada época produz seus mal-estares, a nossa por exemplo, produz a aceleração, a produtividade excessiva, exposição constante do eu, fragilidades dos laços. O sujeito traz ao consultório sua dor íntima, acrescida do eco coletivo que o molda, então quando escutamos o sujeito estamos escutando a cultura que passa por ele, e isso é o que abre espaço de singularização.
Assim, a clínica sempre permanece viva porque reconhece que o inconsciente é tecido na cultura e o sujeito fala entre atravessamentos para que algo de singular se cria nesse entre. A arte e a psicanálise mostram que é justamente do resto, da falta, da tensão pulsional e do mal-estar que nasce a possibilidade de subjetividade, de forma e de mundos possíveis, ambas apostam na criação, seja no gesto artístico, seja na palavra que, de repente, encontra sua hora.
E, então, a arte imita o inconsciente? Ou o inconsciente se revela na arte? Talvez a arte seja o inconsciente em forma sensível, e a psicanálise, a arte da escuta. Obrigada por chegar até aqui conosco nesse ensaio, sigamos juntos fazendo laço, transmissão e rede. Sempre na beleza do gesto e na alegria do encontro. Compartilhe sua reflexão, queremos ler.
ONDE APOIAMOS NOSSO ENSAIO? COM QUEM FAZEMOS ALIANÇAS?
ARISTÓTELES. Poética. Tradução, introdução e notas de Paulo Pinheiro. São Paulo: Editora 34, 2015.
BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
FREUD, Sigmund. Dostoiévski e o parricídio. In: FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia: o futuro de uma ilusão e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. v. 17.
FREUD, Sigmund. Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969. v. 11.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
PROENÇA, Graça. História da arte. 18. ed. São Paulo: Ática, 2019.
RANCIÈRE, Jacques. O mal-estar na estética. Tradução de Pedro Hussak. Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Paulo: Editora 34, 2023.
Texto escrito por:
Andréia Cristina Camargo Walter. Psicanalista em Cascavel – PR (Atendimento presencial e Online). Graduada em História; especialista em Metodologia do Ensino, Orientação e Coordenação Escolar. Com experiência em História da Arte – atuou como docente nos anos finais do Ensino Médio.
Priscila Lourenço. Psicanalista em João Pessoa – PB (Atendimento Online). Estudante de Pós-graduação em Psicopatologia, Psicanálise e Clínica Contemporânea. Com experiência na área da saúde e gestão, atuando também como técnica de enfermagem em Hospital Universitário. Graduada em Processos Gerenciais com MBA em Auditoria em Saúde.
Valeria Maria. Psicanalista, professora e atriz. Graduada em Educação Artística – Teatro (bacharelado e licenciatura) FURB-SC. Especializada em Psicologia Intercultural na prática clínica (PSI Terapia no Exterior – EUA). Especialista em Psicanálise: Clínica Lacaniana (Unifil/ESPE-PR). Especialista em Fundamentos estéticos e metodológicas da arte. Mestre em Teatro pela UDESC-SC. Cursou as disciplinas de doutoramento no PPGAC da UDESC-SC como aluna de regime especial. Psicanalista no Diretório Internacional do Psi Terapia no Exterior e na VM Psicanálise.
Victor Hugo de O. Schoepping. Psicanalista responsável pela VHOS Clínica Psicanalítica em Osasco/SP com atendimento presencial e on-line. Trilhando a graduação em Psicologia. Já trilhou a logística e comércio exterior. E teve experiências ao longo da vida acadêmica com a docência no ensino fundamental 01 e foi contador de histórias.
*Os autores são Psicanalistas. Realizam atendimentos presenciais e on-line a partir de seus consultórios em Cascavel/PR (Andréia), em João Pessoa/PB (Priscila), em Itajaí/SC (Valéria) e em Osasco/SP (Victor Hugo). Todos são partícipes do Projeto Arte e Psicanálise.
Respostas de 6
Foi um desafio lindo fazer essa experiência. Muito movimento no projeto Arte e Psicanálise. É um respiro no cotidiano. É inspirador! Obrigada! ♥️
Sou admiradora em suas criações e é uma troca edificante e prazerosa em conhecimento compartilhado. Gratidão por tanto.
Que texto bonito! A leitura me tocou especialmente pela forma como aproxima a arte daquilo que, muitas vezes, sentimos, mas não conseguimos colocar em palavras. Fiquei pensando em quantas vezes uma música, uma imagem, uma poesia ou uma obra de arte consegue dizer algo de nós antes mesmo que consigamos perceber.
Achei muito bonita essa ideia de que a arte fala onde a palavra tropeça e de que a psicanálise escuta aquilo que ainda não sabemos que estamos dizendo. Talvez seja justamente nesse encontro entre o sentir, o criar e o escutar que exista tanta beleza.
Termino a leitura com a sensação de que arte e psicanálise nos ensinam, cada uma à sua maneira, a olhar com mais delicadeza para aquilo que em nós ainda busca uma forma de existir.
*Arte e Psicanálise, eu faço parte*
Um texto muito rico que abre muitas reflexões e faz pensarmos que a arte e a psicanálise andam juntas.
“Arte e Psicanálise, eu faço parte”
Participar da construção deste ensaio foi desafiador e ao mesmo tempo um processo muito interessante. O desassossego nos leva a lugares que não imaginávamos ser possível. Obrigada pela oportunidade de participar. O resultado ficou lindo!
A perspectiva do texto é muito instigadora. Penso que a síntese de que a arte fala onde a palavra tropeça e a psicanálise escuta onde não percebemos que falamos, capta com precisão o ponto de encontro entre essas duas experiências: a recusa em domesticar o inconsciente.
É muito bom ver como a própria escrita a várias mãos materializa a proposta do ensaio: pensar em rede, sustentar o laço e acolher o desassossego em vez de tamponá-lo. O texto lembra que a criação artística não é mero objeto para a psicanálise interpretar ou patologizar, mas sim, mestra na arte de dar borda e contorno àquilo que escapa ao indizível.
Parabenizo os autores pela iniciativa.