Lucrécia: envelhecer, desejar e permanecer sujeito

A partir do espetáculo Lucrécia, da Trupe Ave Lola, Carmen Strobel propõe uma reflexão sobre velhice, desejo, memória e identidade. Em diálogo com a Psicanálise, o texto questiona os lugares impostos ao sujeito que envelhece e reafirma a possibilidade de elaboração, transformação e desejo ao longo da vida. Uma reflexão sobre o que permanece quando antigas formas de existir já não servem inteiramente.
lucrecia_capa_sem_texto

Carmen Strobel

Na sexta-feira, fomos ao teatro.

O Núcleo Presencial EPC – Psicanálise em diálogo com a cultura se encontrou para assistir a Lucrécia, espetáculo da Trupe Ave Lola, dirigido por Ana Rosa Tezza, com Helena Tezza e Wenry Bueno em cena.

Mas há espetáculos que não terminam quando as luzes se acendem.

No palco, Lucrécia ganha corpo por meio de um fantoche em tamanho real, manipulado magistralmente por Helena Tezza. Por vezes, há estranheza no olhar entre atriz e fantoche, como num espelho que revela duas faces separadas pelo tempo. Entre as duas, passado e presente se encontram e a memória ganha espaço.

Acompanhamos Lucrécia diante da iminência de deixar sua casa para viver em uma instituição. Antes, ela se esconde dentro de um guarda-roupa. É nesse espaço íntimo e simbólico que memórias, afetos, fantasias, delírios e fragmentos de sua história ganham corpo. O que poderia ser apenas uma narrativa sobre a velhice transforma-se, na cena, em uma travessia pela memória, pela identidade, pelo desejo e pela difícil relação entre autonomia e cuidado.

A velhice está ali

Mas Lucrécia escapa – não de seu corpo ou de sua casa – mas escapa por seu desejo.

Ela não cabe inteiramente no corpo que envelhece, nas decisões tomadas sobre ela ou naquilo que já não pode fazer.

E uma pergunta atravessou a noite:

O que sobra de nós quando os outros começam a nos definir por aquilo que perdemos?

Freud, em determinado momento de sua obra, manifestou ceticismo em relação ao atendimento psicanalítico com pessoas mais velhas, associando a idade à diminuição da plasticidade dos processos psíquicos. A experiência clínica, o desenvolvimento posterior da psicanálise e também as mudanças culturais, entretanto, têm permitido deslocar profundamente essa perspectiva. Hoje, sabemos que envelhecer não significa o fim da vida psíquica, nem do desejo, nem da possibilidade de elaboração e transformação.

É nesse ponto que a reflexão de Ângela Mucida se torna especialmente fecunda. Em “O Sujeito não Envelhece: Psicanálise e Velhice”, a autora chama atenção para o fato de que a velhice não é apenas biológica – ela é atravessada pelos discursos de cada época e pelos significantes que cada época produz para nomear – e muitas vezes limitar – aqueles que envelhecem. Nesse sentido, a velhice pode tornar-se também um lugar socialmente imposto, capaz de produzir efeitos sobre a maneira como alguém passa a se perceber e a ser percebido.

A velhice existe. As perdas existem. A finitude existe

Mas ninguém se resume àquilo que o tempo levou.

E aí se apresenta uma questão importante para pensar uma clínica da maturidade: não se trata de negar as perdas reais que podem acompanhar o envelhecimento, nem de romantizá-lo, mas de não reduzir alguém àquilo que perdeu. Entre as transformações do corpo, as mudanças nos lugares sociais e familiares e a proximidade mais concreta da finitude, permanece a possibilidade de produzir sentidos, reorganizar a própria narrativa e, sobretudo, encontrar novas formas de desejar.

 

Envelhecer não é deixar de ser. É descobrir quem se é quando antigas formas de existir já não servem inteiramente.

 

E foi para essa reflexão que o Núcleo Presencial EPC foi ao teatro.

Ao levarmos Lucrécia para o campo de interlocução entre psicanálise e cultura, o Presencial EPC reafirma uma aposta: a de que a arte não apenas ilustra conceitos, mas nos oferece experiências capazes de deslocar o pensamento. E também nos faz retornar à clínica com novas perguntas.

Quando a psicanálise encontra o teatro, a literatura, o cinema e a cidade, ela se deixa interrogar.

Sair do divã não é abandonar a clínica. É ampliar os lugares de escuta.

E há algo que só o encontro presencial produz.

Estar diante da mesma cena. Dividir o silêncio e o riso. Perceber que aquilo que nos comoveu inquietou alguém de outro modo. Conversar depois. Escutar uma associação que não havíamos feito.

O presencial restitui ao encontro sua dimensão de corpo e de presença. A experiência se transforma porque foi vivida entre muitos.

Naquela sexta-feira, fomos assistir a Lucrécia.

Voltamos com perguntas.

O que permanece quando o corpo denuncia mudança?

Quem somos quando os papéis que nos organizavam começam a se desfazer?

O que ainda deseja em nós quando o mundo imagina que já deveríamos ter desistido?

Não fomos ao teatro em busca de respostas.

Fomos para que algumas perguntas ganhassem voz – a voz de Lucrécia.

 


Texto escrito por:

 

Carmen Strobel

Psicanalista. Coordenadora do Núcleo Presencial EPC. Graduada em Fonoaudiologia pela PUC/PR e graduanda em Gerontologia. É idealizadora e fundadora do fala!, coletivo de escuta psicanalítica, onde atua na clínica e na sustentação de espaços de escuta social. Como mediadora de leitura, conduz encontros orientados por um viés psicanalítico, onde o texto é tomado como experiência viva, abrindo espaço para o encontro com o outro e consigo mesmo, favorecendo processos de simbolização. Possui especialização em Fundamentos da Psicanálise e transita por diversos espaços de transmissão e formação continuada. Desenvolve estudos na intersecção entre psicanálise e cultura, com ênfase na literatura.

Compatilhe

Posts Relacionados

WhatsApp Image 2026-09-04 at 09.46.33

Cartas compartilhadas: pontinhas de alguma verdade

"Cartas compartilhadas: pontinhas de alguma verdade" reúne cartas trocadas pelas psicanalistas Valéria Maria e Flávia Carvalho. Entre verdades, angústias, repetições e desejos, as autoras conversam sobre aquilo que nos constitui, e provocam uma pergunta que permanece: o que fazemos com o que fizeram de nós?
Continue lendo
Captura de Tela 2026-09-07 às 13.55.43

Núcleo presencial EPC

O Núcleo Presencial EPC é um espaço de encontro, escuta e transmissão da Psicanálise. Reúne estudantes, psicanalistas e interessados em aulas, grupos de estudos, seminários e atividades culturais, fortalecendo a troca, a elaboração e a construção coletiva do conhecimento.
Continue lendo
Gemini_Generated_Image_78cou178cou178co

A racionalização como mecanismo de defesa na neurose obsessiva: uma reflexão a partir da teoria Freudiana

A neurose obsessiva é apresentada como uma forma específica de funcionamento psíquico, marcada pelo conflito no campo do pensamento, da dúvida e do controle. O texto de Juliana de Lucca destaca a racionalização como defesa que protege da angústia, mas também dificulta o contato com os afetos e a elaboração do conflito.
Continue lendo

Respostas de 2

  1. Excelente ação, nada como encontrar-se no teatro e lá em presença com o acontecimento poder levantar diálogos, escritas e relações que nos movimentem no campo da Psicanálise. A arte e a psicanálise tem essa estranha e deliciosa mania de fazer trama, fazer tecido e nos comunicar com nossos restos. Um espetáculo de t4atro é sempre uma potencia de inconscientes em cena.

  2. Excelente texto. A leitura me deixou atravessada por interrogações sobre questões que, até então, eu ainda não havia me permitido pensar com tanta atenção.
    Muito obrigada pelas reflexões. De alguma forma, elas ampliaram meu olhar e transformaram a maneira como percebo o tempo, a experiência de viver e a velhice.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

OBRIGADO PELA SUA INSCRIÇÃO

Será um prazer compartilhar este momento com você!
Visão Geral de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.