Por Valéria Maria
Marcos Simoes
O que seria o amor naquilo que buscamos no outro? Seria este um desejo de afeto ou um disfarce para o desejo sexual? Pontuamos com você nosso leitor, que nos relacionarmos sempre nos leva a compreender que, quanto mais estamos no outro, menos podemos estar em nós mesmos. Desta maneira desejamos que esse breve ensaio que segue até você, possa abrir perguntas, diálogos e, sobretudo, nos aproxime de alguma forma, assim o espaço desse blog cumprirá sua função.
Inicialmente abrimos o ensaio nos amparando no que para a Psicanalista Maria Homem é o amor em sua radicalidade. A conhecida psicanalista nos diz que o amor é uma experiência profundamente humana que confronta o sujeito com aquilo que ele tem de mais difícil que é a falta, a vulnerabilidade e o limite. Para ela, amar está longe encontrar alguém que nos complete, cure ou desfaça nossas angústias. Essa ideia de completude amorosa seria, segundo a tradição psicanalítica em que ela se apoia, uma fantasia, pois o amor radical começa justamente quando abandonamos a expectativa de fusão perfeita e aceitamos que o outro é irredutivelmente diferente de nós.
Inspirada principalmente em Sigmund Freud e Jacques Lacan, Maria Homem afirma que o ser humano é estruturalmente faltante, pois existe em cada sujeito um vazio impossível de preencher totalmente. Por isso, podemos afirmar que o amor não nasce da plenitude, mas da falta, porque desejamos sempre algo que nos falta, buscamos o outro porque somos incompletos. Entretanto, nenhum relacionamento consegue desajustar definitivamente essa condição, pois quando alguém espera que o parceiro resolva sua solidão, sua insegurança ou sua sensação de vazio, o amor se transforma numa exigência impossível.
Assim, podemos dizer que na radicalidade do amor, o outro deixa de ser visto como objeto de posse ou projeção narcísica, porque amar radicalmente seria reconhecer que o outro nunca será totalmente conhecido, controlado ou moldado conforme nossos desejos. Existe sempre uma dimensão estrangeira no outro, algo que escapa e, é justamente isso que torna o amor tão inquietante quanto fascinante. O amor verdadeiro exige sustentar essa diferença sem destruí-la.
Cabe entendermos que tipo de amor estamos falando. Por ora, podemos fazer uma dicotomia amorosa que nos leva a compreender qual o sentido do amor que estamos nos referindo. Freud, em 1912, publica a obra “Sobre a mais geral degradação da vida amorosa”, onde ele enfatiza que existe uma divisão libidinal em que se destina afeto ou desejo sexual. Ele acrescenta que, onde houver investimento afetivo, haverá uma dificuldade para o investimento sexual. Nesse sentido, amar pode ser uma proteção diante da castração. Portanto, será que é amor o que buscamos no outro, ou é um disfarce da libido sexual?
Nesse mesmo sentido do texto de Freud, vemos que Maria Homem também critica a forma como a sociedade contemporânea transforma os afetos em mercadoria. Afinal em tempos de redes sociais, hiperexposição e lógica de consumo, as relações muitas vezes passam a funcionar pela busca constante de validação, desempenho e imediatismo, assim o outro vira um espelho para reforçar autoestima, status ou pertencimento. Nesse contexto, amar radicalmente se torna quase um ato de resistência, porque implica tolerar frustração, demora, silêncio, conflito e imperfeição, tudo aquilo que a cultura atual tenta evitar.
O Psicanalista Christopher Bollas, em seu livro “O mundo dos objetos evocativos”, descreve que lidamos com objetos no nosso dia a dia que nos causam certas reações inconscientes. As redes sociais e os objetos observados podem estimular conteúdos inconscientes que levam as pessoas ao contexto do perfeccionismo inatingível, dentre eles as relações amorosas. Fazendo um paralelo com a crítica de Maria Homem, as pessoas buscam um amor relacional fantasiado, que também evoca reações de mal-estar, porque a intolerância das diferenças torna as relações imperfeitas. Ao mesmo tempo que se publica relações amorosas perfeitas, o que não condiz com a realidade. Encontrar a pessoa perfeita se torna uma missão para evitar a imperfeição.
E, existe ainda, uma dimensão importante da solidão em sua reflexão, para Maria Homem, amar não é o rompimento com a solidão fundamental do sujeito, pois nenhuma relação consegue dissolver completamente o isolamento interno de cada pessoa. O amor cria aproximações, pontes e intimidades, mas não apaga a separação essencial entre um ser humano e outro, em vez de fusão absoluta, o amor seria um encontro delicado entre duas incompletudes.
Essa visão dialoga bastante com bell hooks, que entende o amor como prática ética de cuidado, responsabilidade e reconhecimento do outro, e também com Byung-Chul Han, que critica uma sociedade narcísica incapaz de lidar com a alteridade. Enquanto Bell Hooks enfatiza o amor como construção consciente e política, Maria Homem enfatiza sua dimensão psíquica e trágica reiterando que amar implica, inevitavelmente perdas, riscos e desamparo. Já Byung-Chul Han nos aponta que a cultura contemporânea tende a destruir a experiência amorosa justamente porque tenta retirar do contexto da vida humana a negatividade, a tensão e o mistério.
Assim para nós como para Maria Homem, o amor em sua radicalidade não é conforto permanente nem promessa de felicidade contínua, mas sim, uma experiência transformadora porque obriga o sujeito a sair do centro de si mesmo. Assim como na clínica psicanalítica, o amor relacional exige a existência de um terceiro analítico, em que se compreende a existência de cada um em separado e a construção de um terceiro elemento fusional entre os dois. Amar radicalmente é aceitar que o outro não existe para preencher nossas faltas, mas para nos confrontar com elas, por isso o amor é algo tão potente, porque o amor não nos completa, muito ao contrário ele nos desestabiliza, nos convoca a inventar mundos. O amor é o encontro entre duas pessoas incompletas que se complementam na sua incompletude!
Para você que se interessa por esse tema, pela psicanálise e pela vida que acontece cotidianamente, esperamos ter colocado a dialogo alguns bons pontos que esperamos suscitem boa prosa. Você chegou até aqui, agora nos interessa ler seus comentários, participe dialogando conosco, queremos te ler e fazer rede.
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REFERÊNCIAS
BOLLAS, Christopher. O mundo dos objetos evocativos. Tradução de Liracio Jr.; organização de Amnéris Maroni. São Paulo: Nós, 2025.
FREUD, Sigmund. Sobre a mais geral degradação da vida amorosa (1912). In:
IANNINI, Gilson (ed.). Amor, sexualidade, feminilidade. Tradução de Maria Rita Salzano Moraes. Belo Horizonte: Autêntica, 2018. p. 137-154. (Obras Incompletas de Sigmund Freud, v. 7).
HAN, Byung-Chul. Agonia do Eros. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2017.
HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2021.
HOMEM, Maria. Lupa da alma: quarentena-revelação. São Paulo: Todavia, 2020.
Texto escrito por:
Valeria Maria. Psicanalista, professora e atriz. Graduada em Educação Artística – Teatro (bacharelado e licenciatura) FURB-SC. Especializada em Psicologia Intercultural na prática clínica (PSI Terapia no Exterior – EUA). Especialista em Psicanálise: Clínica Lacaniana (Unifil/ESPE-PR). Especialista em Fundamentos estéticos e metodológicas da arte. Mestre em Teatro pela UDESC-SC. Cursou as disciplinas de doutoramento no PPGAC da UDESC-SC como aluna de regime especial. Psicanalista no Diretório Internacional do Psi Terapia no Exterior e na VM Psicanálise.
Marcos Simões. Psicanalista. Graduado em Tecnologia em Comércio Exterior (FATEC-SP). Graduando em Psicopedagogia. Especialista em Neuropsicanálise e Terapia de Casal (Facuminas-MG). Especialista em Neuropsicologia (Faculdade Metropolitana/SP). Especialista em Gestão de Negócios (FATEC-SP) e em Gestão de Projetos (MAX PLANCK-SP). Mestrando em Educação.
Respostas de 4
Que texto lindo, sensível e delicado! Como é bom falar do amor, esse sentimento que tanto nos atravessa e nos convida a pensar sobre os encontros humanos.
Gostei especialmente quando vocês dialogam sobre o amor como o encontro entre duas pessoas incompletas que se completam na sua incompletude .
Admiro muito vocês e a sensibilidade com que transformam pensamentos em palavras. O texto ficou, como diria o querido professor Fabrício, fascinante 🌺
Gostei muito dessa reflexão, porque me fez pensar em quanto, às vezes, buscamos no outro algo que nem nós mesmos conseguimos compreender. Será que queremos amar alguém por quem essa pessoa realmente é ou pelo que esperamos que ela possa nos oferecer? Talvez amar seja justamente aprender a lidar com as diferenças, com aquilo que não entendemos e com o fato de que ninguém será capaz de preencher todos os nossos vazios. E isso não torna o amor menor, pelo contrário, talvez o torne mais verdadeiro. Fiquei pensando se amar também não seria aprender a estar com o outro sem deixar de estar em nós mesmos. Afinal, como podemos construir uma relação verdadeira com alguém se, no caminho, nos perdemos de nós mesmos?
Parabéns pelo texto belíssimo e sensível.
Trouxe à tona um dos aspectos mais importantes sobre a experiência do amor, que é a aceitação da própria vulnerabilidade para que o amor se realize.
Sempre um prazer criar uma ideia via texto para construir diálogos com os públicos da EPC e demais visitantes do blog. Temas é o que não nos faltam. Obrigada a todos que por aqui passarem e puderem ler e comentar. A gente sempre lê tudo!