Construção da Clínica: uma reflexão entre a formação e a prática

A construção da clínica psicanalítica começa muito antes do primeiro atendimento. Neste relato, a psicanalista Andréia Walter compartilha sua trajetória de formação, destacando a importância da análise pessoal, do estudo teórico, da supervisão e dos desafios que transformam o desejo de escutar em uma prática ética e comprometida.
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 “Antes de aprender a escutar o outro, fui convidada a escutar a mim mesma. Talvez seja nesse encontro que a clínica comece a se construir.”  (Reflexão da autora).

 

O encontro com a Psicanálise

            A presente reflexão tem como base uma trajetória pessoal na formação em Psicanálise e no processo de construção da clínica e do consultório. As experiências aqui apresentadas partem de uma vivência singular, uma vez que cada sujeito se constitui e sustenta sua prática a partir dos próprios desejos e da capacidade de sustentá-los.

            Ao longo da formação, por meio das aulas, estudos de caso, leituras, análise didática e análise pessoal, foi possível compreender a importância da Psicanálise como instrumento de descoberta de si. Ter uma base teórica referenciada em Freud, Lacan e outros autores é fundamental; contudo, é na prática que a teoria ganha vida e a experiência se torna concreta.

            A escuta do inconsciente, a elaboração dos traumas e a ressignificação das dores permitiram-me ocupar um novo lugar: o de psicanalista. O percurso pessoal aqui narrado evidencia como o processo analítico possibilita o encontro consigo mesmo, por meio do atravessamento de medos, angústias e marcas da história singular, revelando também sua importância na construção e sustentação da clínica.

            A Psicanálise entrou em minha vida em um momento de busca por compreender questões de ordem pessoal, emocional e profissional. Havia o desejo de desacelerar, voltar o olhar para dentro e encontrar algo que favorecesse a pulsão de vida.

            Por indicação de uma amiga, conheci a Escola de Psicanálise de Curitiba e desejei iniciar a formação. Nos primeiros meses, os atravessamentos subjetivos se fizeram presentes de maneira intensa e não consegui acompanhar minha primeira turma. Entretanto, em determinado momento, ocorreu uma mudança de posição que me permitiu sustentar o desejo de concluir a formação.

            Essa experiência me ensinou que os impasses e as dúvidas fazem parte do percurso. Iniciar uma formação em Psicanálise significa, muitas vezes, deparar-se com questões que provocam desconforto, reposicionamentos e transformações profundas.

 

A importância da análise pessoal

            Freud nos ensina que a escuta analítica não é uma escuta comum. Ela se dirige ao que não foi dito, ao que retorna em forma de sintoma, ato falho ou repetição. Nesse sentido, o tratamento psicanalítico se constitui fundamentalmente por meio da palavra. Conforme Freud (2014) é por meio da relação entre paciente e analista que experiências, queixas, desejos e afetos podem ser expressos, enquanto o analista escuta, intervém e acompanha as reações que emergem ao longo do processo.

            Ao iniciar minha análise, percebi que muitas das minhas dores não tinham nome, mas tinham corpo, tinham repetição. Foi na escuta da minha analista que me senti verdadeiramente acolhida e vista para além da superfície. A experiência analítica possibilitou que conteúdos até então desconhecidos pudessem ser elaborados e ressignificados, evidenciando que a construção da clínica não se limita ao domínio teórico, mas passa, necessariamente, pelo atravessamento subjetivo daquele que se propõe a ocupar o lugar de analista.

 

A construção do consultório e o início da prática

            Depois de retornar e concluir a formação, chegou o momento da autorização e do início da clínica e do consultório. Para quem não possui formação na área, a distinção entre esses dois termos pode parecer estranha. Entretanto, ela é importante: a clínica diz respeito à prática psicanalítica propriamente dita, isto é, ao atendimento e à relação entre analista e analisando. O consultório, por sua vez, refere-se ao espaço físico em que as sessões acontecem, seja no formato presencial, on-line ou híbrido. Inicialmente, desejei e preparei um consultório voltado para os atendimentos on-line.     Transformei um cômodo da minha casa em um ambiente seguro, tranquilo e acolhedor, tanto para os pacientes quanto para mim. Nesse momento, a dinâmica familiar também precisa ser considerada, pois o setting analítico requer privacidade e cuidado.

            Imagine um analista sendo interrompido por um familiar durante uma sessão ou um paciente percebendo a circulação constante de pessoas ao redor do ambiente em que seu analista se encontra. Situações como essas exigem atenção e cuidado. Para além do manejo clínico, o espaço físico precisa ser estruturado adequadamente para que a análise possa acontecer.

            Com o consultório pronto, a análise pessoal em dia e os estudos teóricos ocorrendo continuamente, chegou o momento de aguardar a chegada dos primeiros pacientes. Nesse ponto, alguns movimentos foram necessários: criar um cartão de visitas, elaborar materiais explicativos sobre quem sou e sobre o que é a Psicanálise, além de organizar as redes sociais como forma de divulgação do trabalho.

 

Os desafios do início da clínica

            No meu caso, vivo um momento de transição entre a docência e a Psicanálise. Esse aspecto foi importante porque me permitiu não transferir para a clínica as minhas demandas financeiras. Trata-se de um cuidado importante no início da prática: não transformar o paciente em mero cliente. Quando isso acontece, a sustentação da clínica pode ficar comprometida. Se os atendimentos não chegam no volume esperado, a frustração pode se instalar e colocar em risco o próprio desejo de seguir.

            Por isso, o planejamento financeiro também faz parte da construção da clínica. Atualmente, trabalho em um modelo híbrido. Além do consultório on-line, subloquei uma sala em uma clínica de saúde mental e, em razão da demanda, iniciei também os atendimentos presenciais. A escolha de uma clínica para sublocação e as particularidades do atendimento presencial merecem uma reflexão à parte. Entretanto, já é possível afirmar que é preciso cuidado ao associar o próprio nome e a própria prática a outros profissionais, assim como reconhecer que existem diferenças importantes no manejo clínico entre os diversos formatos de atendimento.

            Conforme abordei no início desta reflexão, teoria e prática são dimensões distintas, mas inseparáveis, que se entrelaçam continuamente no percurso de formação do analista. O tripé psicanalítico — análise pessoal, estudo teórico e supervisão — mostra-se fundamental para sustentar essa construção. Desde a própria autorização até a escolha do formato de clínica e consultório que desejamos construir, muitos desses conteúdos atravessam nossa história e encontram espaço de elaboração na análise pessoal.

 

Considerações finais

            A construção da clínica é um processo que se inicia muito antes da chegada do primeiro paciente e continua ao longo de toda a trajetória do analista. Ela se faz na análise pessoal, no estudo teórico permanente, na supervisão e, sobretudo, na capacidade de sustentar o desejo de escutar o outro.

            Se, em um primeiro momento, a Psicanálise surgiu como uma busca por respostas para questões pessoais, hoje ela se apresenta como um convite permanente ao aprendizado, à escuta e à transformação. Afinal, talvez a clínica não seja algo que se constrói uma única vez, mas um percurso que se reinventa a cada encontro, a cada análise e a cada sujeito que se dispõe a falar e a ser escutado.

            Ao revisitar essa trajetória, compreendo que a construção da clínica é, antes de tudo, a construção de um lugar ético diante do sofrimento humano. Um lugar que não se sustenta em respostas prontas, mas na disposição para escutar, aprender e continuar sendo atravessado pela experiência analítica. E é justamente nesse movimento, sempre inacabado, que reside a riqueza e a singularidade da prática psicanalítica.

 

Referências

FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias à psicanálise (1916-1917). Tradução de Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. (Obras completas, v. 13).

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, v. 10: Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

 


Relato de experiência escrito por:

  • Andréia Cristina Camargo Walter. Psicanalista, graduada em História; especialista em Metodologia do Ensino, Orientação e Coordenação Escolar.

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Respostas de 2

  1. Passo aqui para deixar minha gratidão a EPC por acrescentar tanto em minha vida e pela transformação que obtenho em cada transmissão,cada conteúdo que nos é colocado. Minha clínica psicanalistica a cada dia têm se aprimorado com a troca que recebo pela EPC.

  2. Andreia, muito obrigada por partilhar conosco esse texto, tão rico e tão cheio de boniteza em relação as demandas que constituem a construção dessa dupla clínica e consultório. Pontuas questões que são realmente relevantes tanto do pito de vista subjetivo quanto das questões práticas mesmo. É muito bom também ter você no Projeto Arte e Psicanálise que tem sido esse espaço de laço, rede e transmissão da psicanálise de forma generosa, horizontal e criativa.

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