Antes de ocupar o lugar de psicanalista, atravesse o caminho.

Sem atravessar, com profundidade, o próprio percurso como analisando (sobretudo na análise pessoal) não há como sustentar, com ética e responsabilidade, o lugar de psicanalista.
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Ser psicanalista não é um ponto de chegada. É, antes de tudo, um percurso, e um percurso que não se mede por certificados, títulos ou pela quantidade de conteúdos assimilados, mas pela profundidade da experiência vivida. Trata-se de um caminho que exige tempo, entrega e, sobretudo, uma relação honesta com aquilo que se passa em si mesmo. Não há como sustentar a escuta do outro sem, antes, ter se disposto a escutar a si próprio.

É comum, em determinados momentos da formação, que surja o desejo de ocupar o lugar de analista. Esse desejo, em si, não é um problema (ao contrário, ele pode ser motor do percurso). No entanto, quando não está sustentado por uma travessia consistente, corre o risco de se apoiar em ilusões: a ideia de que o domínio teórico basta, de que a técnica pode ser aplicada como um protocolo, ou de que a posição de analista pode ser assumida por decisão ou vontade.

A formação em psicanálise não se reduz ao estudo teórico, embora ele seja indispensável. Tampouco se limita à participação em espaços clínicos ou institucionais. O que está em jogo é a sustentação de uma jornada que articula diferentes dimensões: o rigor do estudo, o diálogo entre pares, a supervisão da prática e, de maneira central, a análise pessoal.

A análise pessoal não é um requisito formal ou uma etapa burocrática da formação. Ela é o eixo que sustenta a possibilidade mesma de alguém vir a ocupar o lugar de analista. É nesse espaço que o sujeito se confronta com suas próprias determinações inconscientes, com seus impasses, suas repetições, suas defesas. É ali que se produz um deslocamento fundamental: da posição de quem busca saber sobre o outro para a posição de quem se implica naquilo que escuta.

Sem essa travessia, a escuta tende a se tornar superficial, capturada por julgamentos, expectativas ou pela necessidade de responder rapidamente ao sofrimento do outro. A clínica, nesse caso, perde sua particularidade. Por isso, não existe psicanálise sem análise pessoal. E não existe psicanalista que não tenha, antes, ocupado (de forma séria e prolongada) o lugar de analisando.

Ao longo do percurso, alguns sinais podem indicar que ainda há um caminho a ser aprofundado: a insegurança diante da escuta, o medo de não saber o que fazer, a busca por garantias, métodos ou fórmulas que orientem a prática. Esses movimentos são compreensíveis, mas também revelam um ponto essencial: a tentativa de evitar o encontro com o não-saber, que é constitutivo da própria psicanálise.

A psicanálise não oferece respostas prontas. Não opera a partir de protocolos fixos. Ela exige presença, uma presença que não se improvisa, mas que se constrói ao longo do tempo, na repetição dos encontros, na elaboração contínua da própria experiência, na sustentação de um lugar que não se apoia em certezas, mas em uma ética.

Ocupar o lugar de psicanalista implica uma responsabilidade profunda. Trata-se de sustentar a escuta do outro sem recair em intervenções apressadas, sem ceder à tentação de orientar, aconselhar ou conduzir. Isso só se torna possível quando há um trabalho contínuo sobre si mesmo, quando o sujeito já pôde, em sua própria análise, confrontar aquilo que insiste, que retorna, que escapa ao controle.

Não há atalhos nesse percurso. Cada um terá o seu tempo, a sua forma de atravessamento, os seus impasses e descobertas. Mas há algo que não pode ser negligenciado: a necessidade de se implicar verdadeiramente na jornada. Estar em análise, frequentar espaços de estudo, dialogar com pares, sustentar a supervisão, tudo isso não como obrigação externa, mas como condição para que algo da clínica possa, de fato, se sustentar.

Antes de ocupar o lugar de analista, é preciso consentir em ser analisando. Antes de conduzir, é necessário permitir-se atravessar. Antes de sustentar o outro, é fundamental ter construído, em si, as condições mínimas para sustentar esse lugar.

Sem essa travessia, o risco não é apenas de uma prática frágil, é a própria impossibilidade da clínica.

A psicanálise exige tempo. E, sobretudo, exige verdade no percurso.

 


Ensaio escrito por Fabricio Tavares, Psicanalista, graduado em filosofia, artes visuais e serviço social; especialista em psicanálise; mestre em serviço social.

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