Cartas compartilhadas: pontinhas de alguma verdade

"Cartas compartilhadas: pontinhas de alguma verdade" reúne cartas trocadas pelas psicanalistas Valéria Maria e Flávia Carvalho. Entre verdades, angústias, repetições e desejos, as autoras conversam sobre aquilo que nos constitui, e provocam uma pergunta que permanece: o que fazemos com o que fizeram de nós?
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Querida Flávia!

Como anda você? Como andam as águas de São Lourenço? Por aqui, como sempre, penso coisas, conjecturo outras, leio poesia, escuto música e te escrevo. E penso como é bom ter com quem fazer trocas verdadeiras.

Anda em meus pensamentos o tema da verdade. Penso que ao longo da vida, vamos construindo axiomas, pequenas verdades íntimas que organizam nossa maneira de existir no mundo, são ideias, crenças e posições que sustentam o ego e ajudam a responder às exigências do superego que nos cobra o que devemos ser, como devemos agir, o que é aceitável desejar. Essas construções funcionam como uma arquitetura psíquica que nos permite seguir adiante, dar sentido às experiências e manter certa estabilidade diante da complexidade da vida e, durante muito tempo, elas parecem suficientes, até que alguma coisa se desloca.

E como pode ser esse deslocamento, não é? Por exemplo, uma crise existencial pode surgir quando aquilo que nos sustentava deixa de responder às perguntas fundamentais da existência. A angústia então se instala como simples sofrimento e como sinal de que algo do sujeito pede revisão, elaboração, escuta. E, então a “conta chega”, essa conta às vezes é lida como punição, mas na verdade é um encontro inevitável com aquilo que tentamos organizar, evitar ou silenciar ao longo do caminho.

Para nós psicanalistas esse momento pode abrir espaço para um trabalho profundo que é o de questionar os axiomas que nos governam e, talvez, construir novas formas de nos relacionarmos com o desejo, com o outro e com nós mesmos. Aí precisamos iniciar o processo de desconstrução para significar tudo de novo e nos abrirmos para a novidade da vida. A vida do hoje, do agora, de quem sou nesse momento da minha vida com tudo aquilo que me constituiu. As velhas perguntinhas: o que eu adulto dono de minha vida, faço com tudo o que fizeram de mim? Qual a minha implicação, minha posição no rolê da minha própria vida?

Claro que para o processo analítico, usamos a técnica primordial da Psicanálise que é a associação livre, que é permitir que a pessoa fale tudo a sua maneira, sem roteiros, sem preparos, pois esta é a única forma de se conectar com seu inconsciente. Para isso, nós Psicanalistas precisamos viver no setting analítico a abstenção de opinião, a neutralidade, a atenção flutuante e amor à verdade. Que desafio, não é?! Mas só assim podemos viver a ética do amor à verdade de cada sujeito que se encontra conosco no setting. E, dizer e escrever isso é um tanto que fácil, tarefa rigorosa mesmo é viver isso em setting.

Ah, esse lugar bonito e estranho da associação livre, que só ocorrerá se o analista permitir que a pessoa fale e, ao escutá-la esteja em abstinência, livre de qualquer julgamento, livre da moralidade, livre de suas crenças religiosas. Livre de orientações, livre de qualquer coisa que não seja sua escuta aberta, atenta e refinada para escutar aquilo que há entre os significantes e indagar a partir daí. É um desafio, mas quando acontece é um lugar incrível de se habitar, viver.

Abraços daqui te Itajaí/SC, sul do nosso imenso Brasil!

Valéria (a Maria que é também de Oliveira).

 

 

Caríssima Valéria,

Por aqui, querida, estou bem. Os dias vão acontecendo com suas miudezas, seus movimentos e questões, e eu sigo atenta e receptiva ao que vai chegando. Espero que estejas bem e saboreando as belezuras que a vida nos proporciona.

Sua escrita me tocou em tantos lugares. E que bom poder fazer essas trocas verdadeiras com você, atravessando distâncias e construindo, pela palavra, alguns pontos de encontro. O desafio que você traz, aos poucos, pode ir cedendo espaço para o possível. Quando o que parecia impossível começa a ganhar contorno, podemos nos perguntar o que fazemos com o que nos formou.

É aí que o trabalho analítico encontra sua delicadeza. Quem chega à análise passa a perceber que certas verdades que sustentaram sua trajetória também podem ter estado a serviço de seu sofrimento. O que um dia foi uma solução pode, em outro momento, tornar-se um cárcere. Certas defesas que nos protegeram podem mais tarde impedir o movimento. E identificações que ofereceram pertencimento também podem cobrar preços altíssimos.

Uma análise não acontece simplesmente pela aquisição de novas respostas. Ela começa quando as respostas antigas deixam de funcionar e o sujeito pode suportar permanecer algum tempo diante das questões.

O que eu quero?

Quanto daquilo que faço pertence a mim e quanto responde às expectativas daqueles que me construiram?

Essas indagações costumam produzir angústia porque mexem com o que dava uma certa sensação de segurança. O sujeito descobre que não conhece tão bem as razões que o levam a repetir determinadas escolhas, ocupar determinados lugares, estabelecer determinados vínculos ou insistir em determinadas formas de sofrimento. A repetição aparece quando a escolha consciente já não explica o que está acontecendo.

Freud nos mostra como o que não pôde ser elaborado pode retornar pela via da repetição. O sujeito pode acreditar que está escolhendo novamente, quando, muitas vezes, está reencontrando uma posição conhecida. Muda o cenário, os personagens, as circunstâncias, mas uma coisa insiste. Na clínica, essa insistência merece escuta. A repetição não é apenas um erro que precisa ser corrigido. Ela carrega uma lógica própria. O que insiste ainda não encontrou outra forma de inscrição.

Gosto quando Lacan aprofunda essa questão ao nos lembrar que o sujeito não é senhor absoluto daquilo que diz. Tem uma coisa que fala para além da intenção consciente. E o inconsciente não se reduz a conteúdos ocultos que precisam ser desvendados. Ele se manifesta nos efeitos da fala, nos lapsos, nas repetições e nos equívocos. Por isso, o analista precisa ter cuidado para não compreender depressa demais. Compreender depressa pode ser uma maneira sofisticada de não escutar.

A posição do analista exige outra coisa. É preciso sustentar a falta, suportar não saber imediatamente, não preencher o silêncio com uma explicação e não transformar cada fala em uma oportunidade de demonstrar conhecimento.A clínica exige que o analista tolere não reconhecer imediatamente quem tem diante de si. Que o analisando não precise caber na teoria do analista. Que sua vida não seja reduzida a diagnóstico, estrutura, conceito ou explicação causal.

A teoria nos orienta, mas quem fala está diante de nós com uma história que não se repete exatamente em nenhum outro sujeito. O conhecimento teórico só permanece a serviço da clínica quando aceita não antecipar a singularidade de quem fala. Saber muito sobre Psicanálise não significa saber, de antemão, sobre aquele sujeito. O conhecimento pode sustentar a escuta, desde que não a ocupe.

Essa postura implica uma exigência ética. Quando o analista abdica da posição de quem sabe o que o outro deve fazer com sua própria vida, devolve à pessoa a responsabilidade por sua palavra e por suas escolhas. A pergunta retorna, agora com ainda mais força.

O que eu faço com o que fizeram de mim?

Não podemos escolher tudo o que nos constituiu. Não escolhemos a família em que nascemos, as palavras que ouvimos, os lugares que nos foram atribuídos, as perdas que atravessamos, os desejos que foram autorizados ou interditados. Mas existe um momento em que podemos perguntar o que faremos com essa herança. Amadurecer tem alguma relação com isso. Olhar para a própria história, reconhecer o que aconteceu e construir outra relação com o que nos formatou.

Carregar uma história não significa estar condenado a repeti-la. A análise é, entre tantas coisas, esse lugar estranho e precioso onde podemos voltar àquilo que já conhecemos para escutá-lo de outra maneira. Uma palavra antiga pode adquirir outro peso. Uma repetição pode ser interrogada. E aquilo que parecia destino pode ganhar outras leituras, como defesa, identificação, desejo ou tentativa de responder às demandas do Outro.

A vida pode voltar a produzir questionamentos. Em alguns momentos não serão questionamentos confortáveis, mas possibilidades de perguntas próprias. Viver obedecendo às respostas que recebemos e começar a sustentar as dúvidas que são nossas são experiências radicalmente diferentes. Desse ponto, o sujeito pode se deslocar. Já não precisando encontrar imediatamente uma resposta para cada questão, e conseguindo suportar um pouco mais a falta e escutar o que emerge desse espaço, uma outra relação com a própria vida se torna possível. É sobre construir algumas possibilidades, habitar algumas certezas, até que o próprio caminho nos convoque a revê-las.

A análise não nos entrega um novo manual para viver. Ela pode nos colocar diante da responsabilidade de escrever, com o que somos e com o que recebemos, algo que ainda não estava escrito. E essa pode ser uma das formas mais profundas de liberdade. Poder olhar para a própria história e reconhecer que ela nos constitui, sem precisar ser o último capítulo do que somos. Assim, a questão permanece.

O que faço com o que fizeram de mim?

E depois de tanto procurar explicações, sustentar essa indagação é o que nos permite começar a viver de outro modo.

Nossas cartas fazem isso também. Não chegam para encerrar as dúvidas, mas para fazê-las circular, encontrar outra escuta e continuar produzindo sentidos entre nós. Recebo seu abraço de Itajaí e devolvo daqui de São Lourenço, atravessando a distância pela palavra.

Saudações,
Flávia Carvalho

 

 


Cartas escritas por:

  • Flávia Carvalho, Psicanalista, parceira da Escola de Psicanálise de Curitiba e mãe. Possui Graduação em Administração, é Graduanda em Psicologia e Pós-graduada em Psicanálise Clínica e em Gestão Estratégica de Pessoas. Desenvolve o seu trabalho clínico com foco na intersecção entre o feminino, a maternidade e a constituição subjetiva. É Consultora e Mentora Organizacional com foco em Gestão de Pessoas.

 

 

 

 

 

 

 

  • Valeria Maria. Psicanalista, professora e atriz. Graduada em Educação Artística – Teatro (bacharelado e licenciatura) FURB-SC. Especializada em Psicologia Intercultural na prática clínica (PSI Terapia no Exterior – EUA). Especialista em Psicanálise: Clínica Lacaniana (Unifil/ESPE-PR). Especialista em Fundamentos estéticos e metodológicas da arte. Mestre em Teatro pela UDESC-SC. Cursou as disciplinas de doutoramento no PPGAC da UDESC-SC como aluna de regime especial. Psicanalista no Diretório Internacional do Psi Terapia no Exterior e na VM Psicanálise.

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Respostas de 3

  1. Sempre um prazer fazer e pensar junto com Flávia. A Psicanálise tem essa capacidade de reunir pessoas e fazê-las pensar e agir na vida. Obrigada EPC!

  2. Queridas Flávia e Valéria!
    Estou aqui, na chuva e frio da capital de SP, lendo a troca de cartas, e a leitura me fez pensar que talvez uma das partes mais difíceis de “fazer algo com o que fizeram de nós” seja sustentar quem estamos nos tornando diante daqueles que ainda nos enxergam como quem fomos. Mudamos, elaboramos, ressignificamos, mas nem sempre o outro atualiza a imagem que construiu de nós. Talvez parte da liberdade esteja justamente aí: não precisar convencer o outro de que mudamos, nem continuar habitando a versão de nós que permanece em sua memória.
    Abraços!

  3. Alessandra, muito obrigada pela leitura. Sim, é uma parte difícil, mas também uma possibilidade de fazer, o bom é que um percurso de análise nos possibilita a tomarmos uma posição frente a nossa vida, e assim criar uma maneira mais autoral de viver. Assim é como diz a canção “os outros, são os outros e só”. Um fraterno abraço! Valéria

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