Ó nuvem sombria, execrável treva que caiu sobre mim, escuridão pavorosa e sem remédio! Ai de mim! Como me traspassam as dores do meu sofrimento e a lembrança de meu infortúnio![1]
Édipo Rei, de Sófocles, é uma das tragédias mais importantes da Grécia Antiga e um marco fundamental para a cultura ocidental. A peça narra à história de Édipo, um rei que, ao tentar fugir de uma profecia, acaba por cumpri-la de forma inevitável. Édipo mata o próprio pai e se casa com sua mãe Jocasta, sem saber suas verdadeiras identidades. A obra explora temas profundos como destino, livre-arbítrio, culpa e busca pela verdade. Sua importância para o mundo ocidental é enorme, pois é fonte para a literatura, o teatro, a filosofia e a psicanálise. A ideia do destino trágico e o conflito entre vontade humana e a força dos deuses continuam inspirando diversas obras até hoje. Édipo Rei foi imprescindível para consolidar a estrutura da tragédia clássica, servindo de modelo para gerações de escritores e artistas. É nela inclusive que Aristóteles organiza todo o estudo da Poética, donde emerge a tese da catarse, também utilizada por Freud.
Após tantas idas e vindas em sua saga, e ao se castigar ferindo os próprios olhos, Édipo ainda que conduzido pelo acaso, pelos deuses ou pelo destino a outras instâncias, retorna. Retorna à falta. Retorna ao desejo. Não foi suficiente a travessia para outro reino, para outra vida. A própria vida o reconduz às suas origens, àquilo que insiste, à sua criança ferida. Seus próprios pés inchados caminham de volta até ela.
E assim se dá a (an)dança de todo ser: no adulto habita a criança, na criança habita o bebê. Inspirado na tragédia grega escrita por Sófocles, Freud, a partir de sua prática, teorizou o Complexo de Édipo como uma fase do desenvolvimento psicossexual da criança. Trata-se do momento em que emerge uma forte atração pela figura materna, acompanhada da rivalidade com a figura paterna e vice-versa. Esse processo integra a constituição da sexualidade infantil e se situa, classicamente, na chamada fase fálica, sucedendo as fases oral e anal. O complexo de castração se torna, então, um eixo central na teoria freudiana: é o momento em que a criança precisa integrar, simbolicamente, sua relação com o pai, com a mãe e com o laço que os une. Esse conjunto de questões se organiza em torno de uma ideia fundamental: a falta.
No Édipo, a mãe aparece como o primeiro objeto de desejo. É por meio dela que se apresentam as primeiras experiências de prazer, que mais tarde serão reencenadas na vida psíquica. As formas de amar e desejar carregam, assim, os traços dessa experiência inaugural. Já o pai aparece como um terceiro elemento que tende a gerar não somente a rivalidade, mas também a castração do desejo e instauração da Lei, que também participa da formação do Superego.
Contudo, o Édipo não se encerra na fase infantil, sendo entendido como uma referência para tomadas de decisão futuras. Como a mãe é o objeto inaugural do desejo e o pai é o terceiro elemento que funciona como uma barreira para a satisfação, a partir do complexo de Édipo a criança é inserida na ordem da cultura. A castração simbólica configura a renúncia da posse exclusiva do objeto inaugural, o que leva a criança a direcionar a sua libido para seus próprios objetos do mundo.
O “Édipo Cotidiano” se manifesta em várias situações, como por exemplo, nas escolhas amorosas, nas dificuldades em lidar com figuras de autoridade e na busca por uma satisfação plena, que no desenvolvimento infantil foi impedida pela castração e pela Lei simbólica do pai. Por ser uma passagem do nosso desenvolvimento, o Édipo não se desfaz com o tratamento psicanalítico, mas se transforma. Por mais que exista um momento de crise do Édipo no desenvolvimento infantil, sempre haverá resquícios que vão compor a personalidade do sujeito, deixando marcas na sua vida.
Escutar o Édipo no divã é também escutar os ecos dessa tragédia antiga nas queixas atuais. Assim como se passa na história de Tebas, o analisante busca uma verdade externa. Porém acaba descobrindo que o enigma da Esfinge é aquilo que está dentro de si. Até que se tenha um ego estruturado para suportar seus desejos inconscientes na análise, o analisante preferirá manter seus olhos “furados” para a verdade interna, porém sempre habilitados para a verdade externa.O trabalho analítico visa ajudar o sujeito a caminhar com seus próprios pés, mesmo com os resquícios do passado, para que ele possa sair dessa repetição trágica e construir a sua própria história.
[1] Fala de Édipo depois de sua descoberta com o oráculo.
Texto escrito por:
- Valeria Maria. Psicanalista, professora e atriz. Graduada em Educação Artística – Teatro (bacharelado e licenciatura) FURB-SC. Especializada em Psicologia Intercultural na prática clínica (PSI Terapia no Exterior – EUA). Especialista em Psicanálise: Clínica Lacaniana (Unifil/ESPE-PR). Especialista em Fundamentos estéticos e metodológicas da arte. Mestre em Teatro pela UDESC-SC. Cursou as disciplinas de doutoramento no PPGAC da UDESC-SC como aluna de regime especial. Psicanalista no Diretório Internacional do Psi Terapia no Exterior e na VM Psicanálise.
- Marcos Simões. Psicanalista. Graduado em Tecnologia em Comércio Exterior (FATEC-SP). Graduando em Psicopedagogia. Especialista em Neuropsicanálise e Terapia de Casal (Facuminas-MG). Especialista em Neuropsicologia (Faculdade Metropolitana/SP). Especialista em Gestão de Negócios (FATEC-SP) e em Gestão de Projetos (MAX PLANCK-SP). Mestrando em Educação.