Travessa De(s)formação ou O Inconsciente que Samba!

O texto escrito por Kleber A. Balsanelli propõe uma leitura sensível da teoria freudiana por meio da música brasileira, mostrando como o inconsciente, o desejo e a pulsão atravessam a existência. Um convite à de(s)formação, à escuta de si e ao encontro com o próprio desejo.
Travessa Imagem

O início da de(s)formação. 

Quando me inscrevi para o Curso de Formação na Escola de Psicanálise de Curitiba, as boas-vindas recebidas dirigiram-me votos de êxito e de uma boa “travessia”.

Agora, confesso: nesse percurso inicial não existe formação. A origem da palavra formação (formatio) é incoerente com o início dessa travessia. Não se trata da “ação de formar”, tampouco do “ato de dar forma”. Isso porque uma nova (des)formação atravessa-me. Corta, decompõe, rearranja o existir e abre espaços para ouvir o próprio desejo.

Nesse início de travessia, a ideia freudiana de que não governo a minha própria existência desorganiza o pensamento racional. Pensar, especialmente, o inconsciente possui uma potência transformadora.

Assim, essa travessia (transversus), além do movimento de passar de um lugar para outro, significa também virar do avesso. Aponta também para o travesso, aquele que brinca e bagunça.

Esse brincar, também no presente texto, é uma tentativa pessoal de sentir os conceitos. Para além da elaboração mental, a travessia precisa ser sentida e não ter sentido. Sambar foi o caminho escolhido.

Cantarei músicas que ouvi no berço. Sambas são um material arcaico que movem meus afetos. Minha mãe (claro!) fez a curadoria das músicas desde a infância. Bora, cantar e sambar?

O chocalho inconsciente.

Para iniciar a roda de samba, uma música que ecoava nas paredes de meu berço. Clara Nunes e Chico Buarque indagam sobre a Morena de Angola e o chocalho. A pergunta é o que dá causa ao quê? A morena é quem mexe o chocalho ou “é o chocalho que mexe com ela?”

Morena de Angola
Que leva o chocalho amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho
Ou o chocalho é que mexe com ela?

 

Será que existe uma causa primeira, o chocalho ou o corpo? Freud vai mostrar o inconsciente como fonte de causalidade. Mas a pergunta volta: o que é inicial, corpo ou desejo? O Eu acredita escolher o ritmo. Mas a melodia pulsional é ancestral. E a clínica psicanalítica freudiana dança nesse compasso.

O inconsciente em Freud pulsa desejo manifesto. E esse tambor inconsciente irrompe os limites da roda e transborda para todos os aspectos da vida. Tal como o chocalho da morena, o inconsciente está presente na vigília ou no cochilo, enquanto se cozinha e se batuca.

Será que a morena cochila
Escutando o cochicho do chocalho?
Será que desperta gingando
E já sai chocalhando pro trabalho?

Será que ela tá na cozinha
Guisando a galinha à cabidela?
Será que esqueceu da galinha
E ficou batucando na panela?

 

Mesmo no meio do combate, a morena, movida pelo chocalho, dança no meio da “chama da batalha”. Concordam Clara Nunes e Freud: há algo, para além do racional, que propõe o movimento dessa energia libidinal. A potência dessa energia faz, inclusive, requebrar um militar (sentinela).

Será que no meio da mata
Na moita a morena inda chocalha?
Será que ela não fica afoita
Pra dançar na chama da batalha?

Morena de Angola
Que leva o chocalho amarrado na canela
Passando pelo regimento
Ela faz requebrar a sentinela

 

Pois bem, clareado o assunto, a travessia continua no ano de 1917 com o texto freudiano: “Uma dificuldade no caminho da psicanálise”. Por que um texto de 1917? Ora, em 1917 é gravada a música “Pelo telefone”, primeiro samba gravado no país (3). Parece um bom ano para começar. Em plena primeira guerra e no meio do samba. Será que a sentinela requebra?

Freud e o golpe em Descartes.

No texto “Uma dificuldade no caminho da psicanálise”, Freud evoca a necessidade de “simpatia” para a compreensão de qualquer assunto. Afirma existir uma alienação de sentimentos que dificulta compreender sua teoria psicanalítica. Onde falta empatia, a compreensão não ocorre. Isso porque “Simpatia é quase amor”, como cantou Beth Carvalho.

Em sequência, Sigmund sintetiza sua teoria da libido, a forma como a pulsão sexual se concentra na psique e a necessidade de descarga dessa energia para encontrar satisfação em objetos. A pulsão pressiona o aparelho psíquico para obter satisfação. O samba auxilia compreender a pulsão.

Tal como o cliente folgado de Noel Rosa em “Conversa de Botequim”(4), a pulsão demanda permanentemente – do corpo e da psiquê – por satisfação. Deseja que o garçom, o gerente e toda estrutura do bar satisfaçam-na.

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa

Uma boa média que não seja requentada

Um pão bem quente com manteiga à beça

Um guardanapo e um copo d’água bem gelada

Feche a porta da direita com muito cuidado

Que não estou disposto a ficar exposto ao sol

Vá perguntar ao seu freguês do lado

Qual foi o resultado do futebol

 

Sem pudor, ao final, pede dinheiro emprestado do garçom e manda pendurar a conta. Pouca importa à pulsão quem pagará o preço. Inexiste limite para o representante pulsional na busca por satisfação.

Seu garçom me empresta algum dinheiro

Que eu deixei o meu com o bicheiro

Vá dizer ao seu gerente

Que pendure esta despesa

No cabide ali em frente

A seguir, Freud apresenta o conceito de narcisismo como descarga libidinal que se dirige para o próprio sujeito. Destaca, ainda, que para a “completa sanidade” é essencial que a libido não perca essa mobilidade plena de fluir entre os objetos e o próprio sujeito.

Na sequência, o pai da Psicanálise muda o andamento do samba. Extrapola a ideia de narcisismo individual para o narcisismo universal dos homens destacando um “amor-próprio” que a humanidade possui por si.

A partir de então, descreve os “três severos golpes” que a ciência infligiu à libido universal. Freud se coloca na “mesma prateleira” de dois dos principais cientistas do ocidente. Nicolau Copérnico, astrônomo do Século XV, que retirou a terra do centro do universo e Charles Darwin, naturalista do Século XIX, que deslocou a centralidade do ser humano evidenciando sermos resultado de processo evolutivo igual ao de todos os animais.

Já o severo golpe de Freud na libido universal foi apontar a existência da estrutura inconsciente pulsional, dentro da mente humana, destruindo a crença na autonomia da vontade, na racionalidade das decisões e na capacidade de controle dos impulsos.

Veja-se: Copérnico golpeou Ptolomeu (Séc. II) que colocara a terra no centro do universo. Um golpe cosmológico; Darwin golpeou a biologia da época que defendia a estabilidade das espécies e o catastrofismo para desencadear as transformações orgânicas; e Freud golpeou o próprio sujeito. Isso porque retira do eu (ego) a crença de sua onipotência em relação a suas decisões.

Confesso que me encanta a ideia violenta de Freud golpeando René Descartes (Sec. XVI) e seu existir a partir do pensar (cogito). Mas entendo ser mais poético pensar que Freud continua golpeando o sujeito em sua autonomia até os dias de hoje.

É interessante um homem de ciência como Freud apontar essa evolução do conhecimento usando um termo contundente, “golpe”. Ainda, como no texto, apresentar a mente como um espaço de “combate”, destacar o uso de força contra um “inimigo externo” e a rebelião interna das pulsões sexuais.

Das palavras de Freud evola violência. Estamos em 1916/1917, ano de grande quantidade de batalhas na Primeira Guerra. O cenário ecoa nos escritos da psicanálise. Curiosamente, “golpe” também é o movimento que percute os instrumentos do samba.

Essa força presente no texto, encontra uma outra “tradução” em samba de Paulinho da Viola. O mar aqui manifesta o pulsar. Em Timoneiro(5), canta-se a ausência de um timão para a existência. Acredita-se dar uma direção para o barco, mas o samba aponta: o mar navegar o “eu” e sequer percebemos como ele nos conduz.

Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar.

(…)

E a onda que me carrega

Ela mesma é quem me traz.

 

Há aqui uma advertência clara aos timoneiros, controladores obsessivos da existência, para atentar como a vida se manifesta. O mesmo movimento que (des)organiza, que coloca em movimento, traz de volta a (in)sanidade do sujeito. E a arte da psicanálise funda-se em valer-se desse movimento.

Sobre a ideia de movimento, em 1905 Freud(6) apresentara essa pulsão como representação psíquica de uma fonte interna somática do corpo. Haveria um mover permanente de estímulos à procura de redução da excitação por meio de uma satisfação (meta).

Curioso apontar que uma das origens da palavra samba remeter à ideia de “estar excitado”(7). O samba é golpe percutido no couro, na corda, na madeira ou vindo do coração brasileiro que excita corpo e alma buscando satisfação.

 Agora, quem canta seus males espanta. Todavia, “se não gosta do samba”, como já traduziu Dorival Caymmi(8), “bom sujeito não é; ou é ruim da cabeça ou doente do pé” (neurose obsessiva e histeria?). A pulsão como o samba demandam uma resposta do ser. Ou põem o sujeito em movimento ou adoecem-no.

Ainda, há um samba recente chamado “Partido Inconsciente” (9). Tal título já demonstra a irredutibilidade do inconsciente à razão e sua força. Isso porque o “partido” (alto) é vertente de samba produzido no improviso e no embate. Não se reduz ao texto prévio.

Claro, há algo que se repete, a “primeira” (refrão). E, como numa análise, a repetição serve para pensar, manter o movimento e construir o novo: os versos (“a segunda”). A música, a alegria e a dor vividas na roda do partido alto (no setting), sacodem as representações da pulsão e movem os afetos para a conexão com palavras que giram no ar e fazem ecoar os lugares recônditos da alma.

Ah, o samba desconhece contradição. A ambivalência é presente como no inconsciente. De um lado, o samba canta a dor da escravidão negra brasileira. Quatro milhões de homens, mulheres e crianças negros foram arrancados da África e vieram para o Brasil em decorrência do modo de produção europeu.

Nesse cenário, o golpear um instrumento, o cantar e o dançar libidinal são formas de sublimar e extrair satisfação da existência. Na origem, um “pacto de compromisso” social, uma música tolerada sob a violência do açoite. Atualmente, caminho para reverenciar a história e permitir que a excitação pulsional brasileira siga viva.

Essa tensão na formação da alma brasileira (no narcisismo tropical) é marcada em “Desde que o samba é samba” de Caetano Veloso. Cantar esse samba é reconhecer que a tristeza é senhora, mas pode mover-se. O samba, pai do prazer e filho da dor, pulsa vida e morte.

A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba, é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite, a chuva que cai lá fora

Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora

(…)

O samba é o pai do prazer
O samba é o filho da dor
O grande poder transformador

Agora, a saideira!

O inconsciente não é escravizado de conceito. Escapa facilmente. Assim como o samba, sua potência não se reduz a uma representação geral. Transpõe limites, dialoga e mantém relações e se integra a outros ritmos.

A travessia psicanalítica demanda um cantar e sambar atento a esse parceiro partideiro. Isso porque a de(s)formação requer coragem para entrar em contato com dor e o prazer de ser (ou não) quem se é. Intuir a cadência inconsciente, cantar estrofes e criar versos novos. Gerar vida e satisfação na roda e na relação com os pares do samba.

Dizem, por aí, que samba e inconsciente são conceitos ultrapassados. Novas tecnologias representam melhor a mente e a música. De minha parte, fico com a elegância e com o cavaquinho de Paulinho da Viola, em “Eu canto samba”.

Eu canto samba
Porque só assim eu me sinto contente
Eu vou ao samba
Porque longe dele eu não posso viver
Com ele eu tenho de fato uma velha intimidade
Se fico sozinho ele vem me socorrer

Há muito tempo eu escuto esse papo furado
Dizendo que o samba acabou
Só se foi quando o dia clareou

 

O dia clareou e a travessa de(s)formação segue, sambando …

 

Referências bibliográficas e musicais.

  1. FREUD, Sigmund. Uma dificuldade no caminho da psicanálise. In: FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. v. 17 (1917–1919). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
  2. ______________. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, Sigmund. Obras completas: três ensaios sobre a teoria da sexualidade, análise fragmentária de uma histeria (“O caso Dora”) e outros textos (1901-1905). São Paulo: Companhia das Letras, 2016. v. 6, p. 13-172.
  3. LOPES, Nei e SIMAS, Luis Antonio. Dicionário da História Social do Samba, 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015, p. 274.
  4. (Dicionário Etimológico em https://www.dicionarioetimologico.com.br, consulta realizada em 03/06/2026.
  5. Morena de Angola (1980, Odeon), composição de Chico Buarque de Holanda, escrita a pedido de Clara Nunes.
  6. Simpatia é quase amor (1984), hino do bloco de carnaval carioca homônimo, composição de Kleber Rodrigues, Eduardo Medrado, Elias Lajes, Valmir Ribeiro, Sandro Márcio.
  7. “Conversa de Botequim” (1935, Odeon), composição de Noel Rosa e Vadico.
  8. “Timoneiro” (1996, Sony Music), composição de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho.
  9. Samba da Minha Terra (1940, Columbia), composição de Dorival Caymmi.
  10. Partido Inconsciente (2020), produção independente, composto por Júlia Ribeiro e Karina Neves.
  11. Desde que o samba é samba (1993, Philips / PolyGram), composição de Caetano Veloso.
  12. Eu canto Samba (1989, RCA), composição de Paulinho da Viola.

 


Texto escrito por:

  • Kleber Alexandre Balsanelli. Estudante de Formação em Psicanálise da EPC, Mestre em Gestão Pública (EBAPE/FGV), Advogado da União, professor de judô, manipulador de bonecos e adora ouvir sambas (por influência da mãe)! 

Compatilhe

Posts Relacionados

WhatsApp Image 2026-07-07 at 11.31.30

Construção da Clínica: uma reflexão entre a formação e a prática

A construção da clínica psicanalítica começa muito antes do primeiro atendimento. Neste relato, a psicanalista Andréia Walter compartilha sua trajetória de formação, destacando a importância da análise pessoal, do estudo teórico, da supervisão e dos desafios que transformam o desejo de escutar em uma prática ética e comprometida.
Continue lendo
WhatsApp Image 2026-06-18 at 16.22.27

O início da clínica psicanalítica: entre o silêncio, o desejo e a sustentação do analista

Iniciar a clínica psicanalítica é atravessar dúvidas, silêncios e incertezas. Neste artigo, a psicanalista Priscila Lourenço reflete sobre os desafios do analista em formação, a construção da escuta, a importância do tripé psicanalítico e a ética que sustenta uma prática comprometida com a singularidade do sujeito.
Continue lendo
WhatsApp Image 2026-06-18 at 16.04.58

Psicanálise e a constituição do sujeito: reflexões a partir de Freud e Lacan

O que é a Psicanálise e por que ela continua tão atual? Neste texto, exploramos os principais conceitos de Freud e Lacan, o papel do inconsciente, dos sintomas, da linguagem e do desejo, revelando como a Psicanálise oferece caminhos para compreender o sofrimento humano e a constituição da subjetividade.
Continue lendo

Uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

OBRIGADO PELA SUA INSCRIÇÃO

Será um prazer compartilhar este momento com você!
Visão Geral de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.