Sándor Ferenczi: Mutualidade, clínica e presença.

Um convite a repensar a clínica psicanalítica, a partir de Sándor Ferenczi, como um encontro vivo e ético de mutualidade, no qual analista e analisante se afetam reciprocamente, sustentando uma presença humana, sensível e responsável diante do sofrimento.
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“A percepção das fraquezas do analista leva ao abandono das esperanças exageradas de indulgência.”

Sándor Ferenczi, Diário clínico.

 

Significado de mutualidade:

1 Qualidade ou caráter do que é mútuo; reciprocidade.

2 Troca recíproca; permuta, permutação.

ETIMOLOGIA: der de mutual+idade, como fr mutualité.

(Michaelis – Online)

 

Pensar a clínica psicanalítica a partir de Sándor Ferenczi é deslocar o olhar do que o analista pensa saber sobre uma sessão de análise, para o que acontece entre analista e analisante a cada encontro. Em seus textos reverbera uma ideia profundamente ética e, ao mesmo tempo, inegavelmente clínica: a mutualidade. Não como simetria ingênua, ou equiparável, mas como reconhecimento de que o processo analítico é um campo de afetações recíprocas, no qual nem psicanalista ou analisante escapam ilesos.

A mutualidade compartilhada por Ferenczi, quebra a imagem do psicanalista como observador neutro e distante, o a ilusão do mármore imutável. Ferenczi mostra o analista como alguém implicado, afetado, convocado a sustentar uma presença sensível e responsável, que não só escuta, mas sente. A clínica psicanalítica, não se trata apenas de interpretar conteúdos inconscientes, mas ocupar um espaço relacional no qual confiança, risco e verdade emergem. O analista, nesse sentido, não é um decifrador de enigmas, mas um parceiro de travessia.

A clínica proposta por Ferenczi é, antes de tudo, uma clínica das sutilezas Sutileza da capacidade de afinar a escuta às nuances do sofrimento psíquico, especialmente no âmbito do trauma e do indizível, um espaço onde a angústia se apresenta não pela provocação analítica, mas pelas marcas da sua existência. Ferenczi ensina que o trauma não é apenas um acontecimento passado, mas algo que pode se reatualizar no próprio vínculo analítico e impulsionar fora dele. Por isso, a mutualidade exige do psicanalista uma atenção constante à sua própria participação na cena clínica, já se perguntou, quem você é para o seu analisante?

Em Ferenczi, a técnica não é um conjunto rígido de regras, mas uma postura ética em movimento.

A mutualidade, não dissolve a diferença entre analista e analisante, mas a torna a cena analítica elástica e imprevisível. Existe assimetria, mas também há função, técnica e enquadre. O analista oferece continência, mas também se deixa afetar. É esse entrelaçamento que oportuniza o novo e o desconhecido.

Para Ferenczi, a clínica é inseparável da reflexão sobre o lugar do psicanalista, e a sua formação sempre em andamento. Mutualidade, o lugar de percepção para o analista, “sentir com” conceito indispensável, funciona como trava contra a arrogância de supostamente achar que sabe algo do outro, só porque se tem uma “bagagem teórica”.

Quem é esse sujeito que escuta o outro? Ou melhor quem são vocês quando escutam o outro? Como se posicionam diante da dor do outro?  Como lidam com seus próprios limites, suas resistências, seus pontos cegos? E por fim, que humanos somos naquilo que nos é inegociável?

A clínica em Ferenczi significa apostar em uma psicanálise aberta ao contemporâneo, sensível ao sofrimento e comprometida com a complexidade do encontro clínico. Significa valorizar a clínica como lugar de criação, e não apenas de aplicações teóricas ou escuta do rigor semântico.

A mutualidade lembra que a psicanálise não acontece apenas na cabeça do analista, mas no espaço das singularidades entre dois sujeitos. É nesse espaço feito de palavras, escuta, silêncios, afetos e transferências que o sentir virá palavra e expressão. Ferenczi propõem, uma psicanálise extremamente humana.

Voltar a Sándor Ferenczi é uma excelente oportunidade para repensar não apenas o que fazemos na clínica, mas como estamos presentes nela. A mutualidade é, um chamado à responsabilidade, empatia e a coragem de habitar o encontro analítico em toda a sua profundidade e complexidade.

 


Texto escrito por Carina Camacho. Psicanalista e Professora. Graduada em História e graduanda em Antropologia. Possui especializações em Psicanálise e Ensino a Distância. No campo da transmissão, atua com linhas de estudos voltadas a Sándor Ferenczi e Sigmund Freud.

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