“A finalidade, o objetivo, o ideal de toda a análise – e isso costuma ser uma maneira de colocar o nosso trabalho de forma muito simples – é facultar que as pessoas amem e trabalhem. (…) Nosso objetivo, quando discutimos com pacientes, é fazer com que os sintomas percam força, é auxiliar o sujeito a renunciar aos seus sintomas. (…) Por isso, podemos falar em escolhas sintomáticas, ou seja, aquelas feitas para negar o desejo de afirmá-lo, para proteger o Eu e seu narcisismo, em vez de ajudá-lo a baixar guarda (DUNKER, 2024, p. 100)
Aplicativos de namoro, ghosting e amores líquidos: o que isso tem a ver com a psicanálise? Quando falamos em mundo contemporâneo, a velocidade na circulação das informações, o grande avanço tecnológico, os excessos e o extremo individualismo são algumas das características que influenciam a dinâmica das relações amorosas.
Desde o caso Dora, Freud (1901-1905/2021) já teorizava sobre os relacionamentos amorosos e seu impacto na vida psíquica. Mas será que as mesmas dificuldades encontradas naquela época para a realização do amor estão presentes atualmente?
A busca pelo prazer, o medo de formar vínculos e a presença constante das redes sociais como mediadoras das relações se apresentam como elementos que transformam a nossa maneira de amar na sociedade contemporânea. Tal realidade proporciona com que os laços, que já não foram bem aprofundados entre pais e filhos na infância, deixem marcas na constituição psíquica, como as sensações de insegurança e instabilidade no relacionamento com o outro, além do sentimento constante de abandono (BAUMAN, 2021).
Com o passar da idade, a inserção do sujeito nessa cultura individualista e narcisista aumenta e a busca pelo prazer desenfreado e pela felicidade é latente (DEBORD, 2007). A partir daí, confiar, ceder e construir uma vida em comum torna-se um desejo que é evitado. Mas há também outra resposta a esse medo de se relacionar: o retorno do conservadorismo, que apresenta papeis fixos para homens e mulheres dentro de uma relação, nos fazendo lembrar da repressão sexual, característica da sociedade vienense do final do século XIX e que motivou Freud a estudar o sofrimento das histéricas a criar a psicanálise.
E como se esse panorama não fosse suficiente para tornar a formação de laços sociais cada vez mais complexa, há ainda o que podemos chamar de amores perversos, isto é, relações que são marcadas pela violência, ciúme excessivo, controle e sentimento de posse. Esses relacionamentos, conhecidos popularmente como “relações tóxicas” ou “relacionamentos abusivos”, muitas vezes, são o resultado de ambientes violentos e inseguros psiquicamente que foram vivenciados pelo sujeito durante a sua infância. Esse movimento inconsciente de repetir nas relações atuais o laço estabelecido com as figuras de cuidado primordiais aponta para uma tentativa de encenar e reatualizar essas relações do passado, mesmo que elas tenham causado sofrimento (FREUD, 1917-1920/2021).
Como podemos então, como psicanalistas, escutar essas angústias contemporâneas? Refletir, a partir da teoria psicanalítica, sobre os fenômenos sociais da nossa época nos ajuda a atualizar a teoria e, até mesmo, manejar o amor de transferência estabelecido entre o par analítico dentro do setting, seja ele presencial ou atravessado pelo uso das tecnologias da comunicação. Além disso, é importante lembrar que apartar a clínica desses mal-estares contemporâneos, utilizando uma leitura teórica enrijecida, não parece ser uma solução que o próprio criador da psicanálise utilizaria para ouvir os seus pacientes.
.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre as fragilidades dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2007.
DUNKER, Christian Ingo Lenz. A arte de amar: uma anatomia de afetos, emoções e sentimentos. Rio de Janeiro: Editora Record, 2024.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In: Obras completas, volume 14: História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
_______________. Análise fragmentária de uma histeria (“O caso Dora”). In: Obras completas, volume 6: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, análise fragmentária de uma histeria (“O caso Dora”) e outros textos (1901-1905). São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
Texto escrito por Francine Pszepiura. Psicanalista, Psicóloga e Terapeuta de casais. Graduada em Psicologia (Universidade Positivo) e Relações Públicas (UFPR). Pós-graduada em Psicanálise e Análise do Contemporâneo (PUCRS) e em Psicologia Clínica (UniCuritiba).