Psicanálise e a constituição do sujeito: reflexões a partir de Freud e Lacan

O que é a Psicanálise e por que ela continua tão atual? Neste texto, exploramos os principais conceitos de Freud e Lacan, o papel do inconsciente, dos sintomas, da linguagem e do desejo, revelando como a Psicanálise oferece caminhos para compreender o sofrimento humano e a constituição da subjetividade.
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           A Psicanálise constitui simultaneamente uma teoria do funcionamento psíquico, um método de investigação do inconsciente e uma prática clínica voltada ao tratamento do sofrimento humano. Desde sua invenção e formulação por Freud, no final do século XIX para início do século XX, ela se consolidou como um dos campos mais influentes para a compreensão da subjetividade, dos conflitos internos e das formas pelas quais o sujeito se relaciona consigo mesmo, com o desejo e com o outro. A Psicanálise ultrapassa os limites de uma prática clínica convencional, pois oferece uma leitura ética, histórica e simbólica da constituição humana.

            Freud posiciona o psiquismo como um aparelho marcado pela memória, pela inscrição de experiências e pela permanência de conteúdos inconscientes que continuam produzindo efeitos na vida presente. Nesse sentido, “a Psicanálise busca compreender o funcionamento psíquico como um aparelho de memória, onde o conteúdo inconsciente influencia o comportamento presente” (Freud, 1974). O inconsciente, portanto, não é depósito de lembranças esquecidas, mas sim uma instância ativa, dinâmica e determinante, que se manifesta por meio de sintomas, sonhos, atos falhos, lapsos de linguagem e formações neuróticas.

            A técnica fundamental da Psicanálise é a associação livre. Trata-se de um método que convoca o sujeito a falar sem censura, julgamento ou repressão, permitindo que pensamentos, afetos, lembranças e fantasias emerjam livremente. A escuta analítica não se orienta pela moralização da fala, mas pela possibilidade de acessar aquilo que foi recalcado ao longo da história subjetiva. O processo analítico implica, portanto, em um movimento de abertura para conteúdos negados, reprimidos ou esquecidos, possibilitando ao sujeito revisitar experiências traumáticas e afetos não simbolizados.

            Nesse contexto, a análise opera como um espaço de elaboração. Quanto mais o sujeito fala, mais elementos do inconsciente podem ser escutados e interpretados. A livre associação permite convocar conteúdos reprimidos, identificar afetos e reduzir os mecanismos defensivos que sustentam o sofrimento psíquico. Entrar em análise significa colocar em movimento a dimensão dinâmica da psique, deslocando o sujeito de uma posição de inércia para um processo de enfrentamento de sua própria verdade inconsciente. Ainda que esse percurso produza desconforto, ele possibilita a construção de novas formas de significação para experiências anteriormente cristalizadas no sintoma.

            Freud também desenvolveu a teoria estrutural do aparelho psíquico, organizando ele em Id, Ego e Superego. O Id corresponde ao campo pulsional e inconsciente, o Ego atua como mediador entre as exigências pulsionais, a realidade externa e as imposições morais e, o Superego representa a internalização das normas, proibições e ideais sociais. Dentro dessa dinâmica, o recalque ocupa lugar central como mecanismo de defesa do Ego, pois é o responsável por afastar da consciência os conteúdos incompatíveis com a organização psíquica do sujeito. Como afirma Freud (1996), “o que é reprimido não é o conteúdo da ideia, mas a ideia como tal”. O recalque faz a manutenção do conteúdo psíquico, o mantém ativo no inconsciente, e ele acaba retornando de forma disfarçada por meio dos sintomas.

            A teoria freudiana também atribui papel decisivo à infância e às experiências traumáticas na constituição do sujeito. Os primeiros vínculos afetivos, as relações familiares e os conflitos infantis deixam marcas profundas na formação do psiquismo, influenciando diretamente a vida adulta. Dessa forma, a Psicanálise oferece uma importante ferramenta para compreender como eventos passados continuam operando no presente, produzindo modos específicos de desejar, sofrer e se relacionar.

            Entre os conceitos fundamentais da teoria freudiana se destaca o Complexo de Édipo, considerado um eixo estruturante da constituição subjetiva. Freud compreende o Édipo como uma experiência universal, vivida simbolicamente por toda criança na relação triádica estabelecida entre pai, mãe e filho, independentemente de vínculos biológicos ou da configuração de gênero presente na estrutura familiar. O essencial, para a Psicanálise, além do que reside na composição familiar em si, é a posição ocupada pelos sujeitos enquanto objetos de desejo e identificação.

            Na perspectiva freudiana, o momento edípico constitui o núcleo central da organização psíquica e da estruturação do desejo. É nesse cenário que a criança confronta limites, proibições e perdas, experienciando a angústia de castração enquanto processo simbólico de separação. Freud afirma que “é a castração enquanto separação que nos permite compreender que o temor deste perigo acompanha os adultos e se faz presente nas mais diversas situações causando angústia” (1996, p. 135). Assim, o Édipo  representa o núcleo das neuroses, bem como, é o fundamento da sexualidade humana e do processo de sexuação. A partir dele, o sujeito organiza seu posicionamento diante da diferença sexual, da lei e do desejo.

            Importa destacar que Freud trabalha o Édipo como mito estruturante da subjetividade, inspirado na tragédia de Sófocles, enquanto Lacan irá reinterpretá-lo como estrutura simbólica da constituição do sujeito. Para Lacan, o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Sua releitura da Psicanálise desloca o foco da biologia para a dimensão simbólica, enfatizando que o sujeito se constitui por meio da linguagem e da relação com o Outro.

            Segundo Lacan, o sujeito só emerge verdadeiramente quando ingressa na ordem simbólica, isto é, no universo da linguagem, das leis e dos significantes. O desejo humano, nessa perspectiva, é sempre mediado pelo desejo do Outro. Não desejamos de maneira autônoma e isolada, desejamos a partir das relações simbólicas que nos atravessam. O ingresso no campo da linguagem reorganiza os desejos e insere o indivíduo em uma rede social de significações, permitindo que ele se reconheça como sujeito desejante.

            Lacan também introduz os registros do Real, do Simbólico e do Imaginário como dimensões fundamentais da experiência humana. O Imaginário se relaciona às imagens e identificações, o Simbólico corresponde à linguagem, à lei e às estruturas sociais, enquanto o Real designa aquilo que escapa à simbolização, retornando frequentemente sob a forma de angústia ou trauma. Esses três registros se articulam continuamente na constituição subjetiva e oferecem uma leitura sofisticada das dinâmicas psíquicas.

            A contribuição lacaniana amplia significativamente a compreensão da subjetividade ao enfatizar a centralidade da linguagem na formação do inconsciente. O sujeito, para Lacan, não é um ser plenamente consciente de si, mas um efeito da linguagem, atravessado por faltas, desejos e significantes que o constituem. A Psicanálise nos ensina que o sofrimento tem sentido, que os sintomas falam, e que a fala, quando escutada, pode abrir novas possibilidades de existir. Neste processo, o analista sustenta o espaço necessário para que o sujeito encontre caminhos para mover seu viver da vida. Como diria Lacan, “o analista não é aquele que sabe, mas aquele que suporta a falta”.

            Desse modo, a Psicanálise não busca oferecer respostas definitivas ou eliminar completamente os conflitos humanos. Seu objetivo consiste em possibilitar ao sujeito uma nova relação com seu desejo, seus sintomas e sua própria história. Freud, Lacan e os autores posteriores demonstram que o sofrimento psíquico não pode ser reduzido a explicações biológicas ou comportamentais simplificadas. A subjetividade humana é atravessada pela linguagem, pela memória, pela falta e pelo desejo, e é nesse território complexo onde a Psicanálise continua produzindo contribuições fundamentais para a clínica, para a cultura e para a compreensão da condição humana.

 

Referências

Freud, Sigmund. “O Ego e o Id”. In: Edição Standard Brasileira, vol. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Freud, Sigmund. “Além do Princípio do Prazer”. In: Edição Standard Brasileira, vol. 18. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Freud, Sigmund. “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”. In: Edição Standard Brasileira, vol. 7. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Freud, Sigmund. “Interpretação dos Sonhos”. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. IV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Lacan, Jacques. “O Seminário, Livro 11 Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009.

Lacan, Jacques. “O Seminário, Livro 20 Mais ainda “. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

 


Texto escrito por:

  • Victor Hugo de O. Schoepping. Psicanalista responsável pela VHOS Clínica Psicanalítica em Osasco/SP com atendimento presencial e on-line. Trilhando a graduação em Psicologia. Já trilhou a logística e comércio exterior. E teve experiências ao longo da vida acadêmica com a docência no ensino fundamental 01 e foi contador de histórias.

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Respostas de 6

  1. Parabéns pela publicação, obrigada pela partilha, por se colocar no desafio da escrita, da exposição, que é sempre um exercício criativo. Sua presença no Projeto Arte e Psicanálise é uma alegria para todos nós ! Seguimos fazendo laço, rede e transmissão. Na beleza do gesto e na alegria do encontro. Profª Valéria Maria.

  2. Parabéns pelo texto , excelente. A psicanálise se faz com escuta, acolhimento e com os pares.
    Seguimos fazendo laços e aprendizado.

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