O caso Schreber: a busca da validação divina para a aceitação do desejo homossexual

Entre o delírio e o desejo, Schreber buscou em Deus a permissão para amar aquilo que sua época proibia.
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Estudar o caso Schreber, a despeito das conclusões apresentadas por Sigmund Freud, levou-me às reflexões a seguir pelas quais, se ultrapassarem os limites da lógica e da razão, peço desculpas antecipadamente.

Ocorreu-me que Schreber, tendo a questão edipiana — considerada de extrema importância para o desenvolvimento humano, sobretudo por sua função estruturante — mal resolvida, acabou por introjetar as características femininas da mãe, inclusive quanto ao objeto libidinal. Vivendo em uma época em que a homossexualidade era tida como doença, perversão ou mesmo crime, essa pulsão libidinal foi recalcada. É importante lembrar que, até a manifestação inicial da doença (posteriormente identificada como paranoia), suas inclinações eram puramente heterossexuais. Seguindo os padrões sociais de sua época, Schreber casou-se com uma mulher.

Durante uma internação para o tratamento de um episódio depressivo hipocondríaco, conheceu o médico Fleshsig, que se tornaria seu terapeuta. A relação de proximidade entre ambos redespertou em Schreber a libido homossexual, o que lhe causou profunda angústia.

O primeiro movimento defensivo foi a negação do desejo, deslocando a tensão emocional para outra esfera, a ansiedade gerada pela candidatura a um cargo político. Essa tentativa de substituição, contudo, não impediu o aumento do afligimento, agravado pela frustração de não ter filhos. Um filho, afinal, representaria não apenas a continuidade de sua linhagem, mas também a confirmação de sua virilidade e heterossexualidade, tanto para si quanto para a sociedade em que vivia.

Como o inconsciente adormece, mas não apaga o que nele foi recalcado, o desejo de ser possuído por outro homem retornou, ganhando força e exigindo expressão. Em determinado momento, fora do estado de vigília, Schreber imaginou como poderia ser bom assumir o papel da mulher, o lugar da passividade na cópula. Instalou-se então um conflito interno: seguir os padrões sociais, culturais e religiosos da época (intensamente atuantes na formação de seu superego) ou reconhecer o desejo de ocupar o lugar passivo no ato sexual, implicando uma relação com outro homem. Schreber passou a interpretar seus impulsos como a ação de demônios que o invadiam com pensamentos moralmente degradantes.

Sem conseguir libertar-se da tentação e da intensidade do desejo, nem amenizar a angústia que o tomava, Schreber buscou em Deus a validação para o que sentia. Assim, no delírio, acreditou ter sido escolhido pelo Criador para inaugurar uma nova humanidade. Para tanto, deveria tornar-se mulher.

Contudo, essa transformação simbólica não seria suficiente: em seus delírios, ele acreditava que seria fecundado por raios divinos, o que, de certo modo, o poupava da experiência sodomítica, expressão literal de seu desejo original.

A partir disso, Schreber fantasiou uma conspiração entre Deus e seu médico. Nessa trama imaginária, seria entregue a Fleshsig (por quem nutria uma paixão inconsciente), e seu corpo seria usado como o de uma prostituta. Tornar-se-ia, assim, vítima de abusos sexuais, numa inversão simbólica que lhe permitia projetar o desejo como imposição externa.

Para escapar da realidade explícita (e aqui, reconheço, talvez extrapole), Schreber, após adotar comportamentos femininos (chegando a afirmar que os nervos da volúpia se concentravam em seus seios), convenceu-se de que a emasculação e a submissão sexual a outro homem não representavam um desejo próprio, mas uma vontade divina.

Deus, em sua ambiguidade delirante, aparecia a Schreber tanto como salvador (o que o escolhera para ser o primeiro representante de uma nova raça) quanto como algoz: aquele que permitia o uso de seu corpo para fins “imorais”.

Pouco se sabe sobre o tipo de tratamento a que foi submetido, embora registros indiquem três internações, sendo a última responsável por sua permanência no hospital até a morte, em 1911.


 

Texto escrito por Pedro Bueno, Psicanalista, Psicopedagogo, Professor e Escritor. 

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