A práxis cotidiana: os fazeres da clínica no contemporâneo

A clínica psicanalítica, em meio ao excesso contemporâneo, permanece como o espaço que desbasta, sustenta o vazio e acolhe o sujeito em sua verdade.
02

O sujeito contemporâneo vive atravessado por um paradoxo, pois quanto mais se promete liberdade, mais se exige adequação. As promessas de bem-estar, produtividade e felicidade contínua compõem um cenário em que a existência parece sempre em dívida com algum ideal. A literatura, há muito tempo, oferece espelhos para pensar essa condição. Em Admirável Mundo Novo (Huxley, 1932/2009, p. 47), o humano é fabricado em série e anestesiado em nome da harmonia coletiva. Em A Metamorfose (Kafka, 1915/2002, p. 15), o corpo de Gregor Samsa torna-se o emblema do que retorna quando o sujeito deixa de se reconhecer em sua própria imagem. E em A Hora da Estrela (Lispector, 1977/1998, p. 32), a vida de Macabéa ecoa o silêncio dos que habitam a margem, aqueles que, ainda que invisíveis, carregam a pergunta sobre o sentido de existir. Essas narrativas, cada uma à sua maneira, anunciam a mesma inquietação sobre o que resta de humano quando a vida se torna espetáculo, mercadoria ou ruído.

É nesse território de ruína e reinvenção que a psicanálise se inscreve. A clínica, assim como a literatura, acolhe aquilo que escapa à norma e o que insiste em não caber. Escutar o sujeito, em meio ao turbilhão das promessas de felicidade e performance, é recolher os fragmentos de uma experiência que a cultura tenta apagar. Antes de qualquer técnica, há o gesto ético de sustentar o vazio onde um novo sentido pode emergir.

Na clínica de hoje, a angústia e o mal-estar contemporâneo seguem presentes. O atual momento é atravessado por transformações velozes, instagramáveis e violentas no campo das relações, da linguagem e do corpo. O estar na vida contemporânea incide sobre o sujeito de forma cada vez mais fragmentada, mobilizando angústias e o sofrimento da regra do desempenho, construindo a geração do cansaço (Dunker, 2017). Freud já nos pontuou que a angústia é um afeto arcaico, anterior ao recalque e desencadeador dos processos defensivos, tem a função de sinalizar a iminência de um perigo pulsional (Freud, 1926/1974, p. 153). Já Lacan define “a angústia é o que não engana” e o que não engana é o que não se deixa significantizar (Lacan, 2005, p. 88). A clínica psicanalítica, nesse cenário, permanece como espaço possível para acolher o mal-estar que não se reduz a diagnósticos e sim às manifestações expressas nas entrelinhas da fala, nos atos falhos, no entre dos significantes ou nos sintomas que resistem.

Diante desse mal-estar que insiste em se manifestar, ser analista hoje é sustentar uma posição em meio ao ruído das promessas de bem-estar instantâneo, manuais de felicidade, lidar com o manejo cotidiano de demandas apresentadas em múltiplas camadas, atravessadas por deslocamentos subjetivos, históricos e sociais. A práxis, para além do enquadre técnico, se posiciona na delicadeza de permanecer com o outro em seus atravessamentos, sem respostas prontas, mas com presença para se construir um novo saber que leve o sujeito a viver a novidade da vida. A escuta, o encontro com o sujeito dividido é um ato político, ético. É também um fazer poético.

A psicanálise se move em direção oposta às exigências contemporâneas que operam per via di porre, acrescentando, acelerando e produzindo sem cessar. Sua via é outra, é per via di levare, a do desbaste. Escutar é retirar o excesso, deixar cair o que encobre o sujeito e o distancia de sua verdade. No tempo em que tudo se acumula, a clínica sustenta o vazio como campo de elaboração. Essa retirada não é um gesto de alívio, mas um trabalho de rigor e presença. A práxis analítica se constrói nesse movimento de subtração que não busca completar, mas sustentar o inacabado. Permanecer com o outro nesse trabalho de escuta e despojamento é o que mantém viva a ética e a potência do ofício.

 

As alianças (ou referências bibliográficas)

BAUMAN, Zygmunt. Ensaios sobre o conceito de cultura. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

DUNKER, C. (2017). Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano. São Paulo: Ubu Editora.

FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Tradução de Lino Vallandro e Vidal de Oliveira. São Paulo: Globo, 2009. (Obra original publicada em 1932).

JORGE, Marco Antonio Coutinho (org.). Lacan e a formação do psicanalista. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2006.

KAFKA, Franz. A Metamorfose. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. (Obra original publicada em 1915).

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 10: A Angústia. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. (Obra original publicada em 1977).

 

 


Texto escrito por:

  • Flávia Carvalho, Psicanalista, parceira da Escola de Psicanálise de Curitiba e mãe. Possui Graduação em Administração, é Graduanda em Psicologia e Pós-graduada em Psicanálise Clínica e em Gestão Estratégica de Pessoas. Desenvolve o seu trabalho clínico com foco na intersecção entre o feminino, a maternidade e a constituição subjetiva. É Consultora e Mentora Organizacional com foco em Gestão de Pessoas.
  • Valéria Maria, Psicanalista, atriz e professora. Graduada em Educação Artística – Teatro (bacharelado e licenciatura) FURB-SC. Especializada em Psicologia Intercultural na prática clínica (PSI Terapia no Exterior – EUA). Especialista em Psicanálise: Clínica Lacaniana (Unifil/ESPE-PR). Especialista em Fundamentos estéticos e metodológicas da arte. Mestre em Teatro pela UDESC-SC. Psicanalista no Diretório Internacional do Psi Terapia no Exterior e na VM Psicanálise.

Compatilhe

Posts Relacionados

Mujer saliendo del psicoanalista (Podría ser Juliana). Remédios Varo. 1960

O corpo feminino como território de inscrição do trauma na clínica ferencziana

À luz da obra tardia de Sándor Ferenczi, o texto revela como o corpo feminino pode tornar-se território de inscrição do trauma quando experiências de excesso, falha ambiental e desmentido impedem a simbolização, convocando uma clínica ética, sensível e comprometida com o acolhimento do indizível.
Continue lendo
Captura de Tela 2026-02-22 às 09.52.51

Tornar-se analista

Ser analista é sustentar, a partir da própria travessia analítica, uma posição ética diante do inconsciente, mantendo-se permanentemente implicado, em escuta e transformação.
Continue lendo
Captura de Tela 2026-02-08 às 11.05.27

Emancipação e Transformação na Formação Psicanalítica

Formação em psicanálise é menos acumular saberes e mais atravessar um processo de transformação subjetiva que emancipa o sujeito e sustenta uma clínica viva.
Continue lendo

OBRIGADO PELA SUA INSCRIÇÃO

Será um prazer compartilhar este momento com você!
Visão Geral de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.