A abstinência na era digital: entre a ética da psicanálise e a exposição do analista

A abstinência na era digital é apresentada como uma posição ética que preserva o espaço do desejo e da elaboração no processo analítico. A psicanalista Francine Pszepiura discute como a exposição do analista nas redes sociais e as demandas de imediatismo atravessam a transferência, destacando a importância de sustentar a escuta e os limites clínicos sem transformar a abstinência em rigidez ou ausência afetiva.
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Francine Pszepiura

 

           Quando pensamos, como psicanalistas, nas implicações da contemporaneidade para a prática clínica, é comum mencionarmos a ampliação das sessões on-line, os contatos entre analista e paciente por meio das redes sociais e as mudanças na percepção do olhar entre os integrantes do par analítico, atravessadas pelo enquadre possibilitado pelas câmeras.

            A partir dessas transformações em nossa realidade cotidiana, podemos nos questionar: as regras fundamentais da psicanálise, propostas por Freud,  ainda conseguem atender aos seus propósitos iniciais de orientar a condução do tratamento e a postura do analista e do paciente?

           Amor à verdade, associação livre, escuta flutuante, neutralidade e abstinência são princípios que ainda permanecem muito atuais e que garantem a viabilidade do processo analítico, porém, talvez seja necessário refletir sobre sua aplicação na contemporaneidade para que possamos realizar algumas flexibilizações que o caso possa demandar, sem deixar de lado o rigor ético que as recomendações freudianas sustentam.

            Nesse contexto, a abstinência aparece como uma dessas regras que talvez seja a mais impactada com as mudanças tecnológicas que atravessam a nossa clínica. Apresentada inicialmente em “Recomendações ao médico que pratica a psicanálise” (Freud, 1912) é apenas em 1915 que ele a formaliza através do texto “Observações sobre o amor de transferência” (Freud, 1915). Para o criador da psicanálise, a abstinência se configura como um pilar fundamental para a associação livre.

           A abstinência (versagung), que se refere à frustração ou à recusa, é apresentada nessa primeira teorização como uma exigência de que o analista recuse gratificações e demandas de amor do paciente, sustentando a privação necessária para que o desejo inconsciente e a transferência sejam os motores do processo clínico. Esse posicionamento ético buscava evitar que o psicanalista, ao corresponder aos sentimentos do analisante, limitasse a capacidade dele livre-associar, prejudicando o tratamento.

           Num terceiro momento, em “Caminhos da terapia psicanalítica”, Freud (1919) responde a críticas de que o processo psicanalítico estaria dedicando muito espaço para a análise das resistências do paciente e olhando pouco para os seus sintomas e a história de sua neurose. A visão desses críticos era de que o analista interpretava muitas atitudes dentro do setting como mera resistência, sem ao menos compreender se havia ali uma repetição ou um sintoma relacionado à estrutura psíquica desse analisante.

          Para Freud (1919), questionar o paciente já no início do tratamento sobre suas resistências poderia levar a uma estagnação do processo analítico. A partir disso, ele sugere aos psicanalistas que inicialmente estejam abertos – e emocionalmente abstinentes – em relação às falas do analisante para que, a partir da diminuição das resistências, seja possível auxiliá-lo a tornar conscientes os conteúdos que foram reprimidos ao inconsciente. Seria somente depois desse primeiro manejo que o analista poderia interpretar o conteúdo e ajudar o paciente a elaborá-lo:

O tratamento analítico deve, tanto quanto possível, ser conduzido na privação, na abstinência. (…) por abstinência, não se deve entender a privação de toda e qualquer satisfação – o que seria naturalmente inexequível -, e tampouco o que no sentido popular se entende por isso, a renúncia ao ato sexual, e sim algo diverso, ligado muito mais à dinâmica do adoecimento e da recuperação. (…) Embora pareça cruel, temos de cuidar para que o sofrimento do doente, em alguma medida eficaz, não alcance um fim prematuro. Quando é mitigado pela decomposição e depreciação dos sintomas, temos que restabelecê-lo em outra parte, como uma privação sensível; de outro modo corremos o risco de nunca atingir senão melhoras modestas e pouco duradouras (Freud, 1919).

         Conduzir o tratamento psicanalítico na privação, portanto, se refere a frustrar os desejos substitutivos que o paciente pode encontrar na relação transferencial. Mantendo-se abstinente, o analista evita ocupar o lugar de salvador – aquele que tem todas as respostas para acabar com o sofrimento do analisante – ou educador – aconselhando-o sobre o que seria o melhor para ele. A partir dessa construção teórica, Freud responde às críticas de sua época que associavam a abstinência a uma postura sádica do psicanalista. Reforça, assim, que essa posição busca sustentar uma tensão necessária à relação analítica, sem que o paciente encontre satisfações substitutivas que interrompam o trabalho de associação livre.

         Seguindo com as construções teóricas sobre a abstinência, Lacan defende em “O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação” (1958-1959) que ela deve ser vivida como uma recusa ética às satisfações substitutivas que sustentam o sintoma do paciente e uma recusa em ocupar o lugar de Outro. Por outro lado, também postula que essa regra fundamental não deve ser vivida pelo psicanalista como uma ausência afetiva, uma frieza pura e simples, mas como um corpo que se oferece como suporte para todas as demandas do sujeito, apesar de não responder e satisfazer nenhuma delas.

         Já em “O seminário, livro 7: a ética da psicanálise” (Lacan, 1959-1960), ele complementa essa ideia ao apresentar que o analista deve ocupar um lugar de vazio, não se utilizando da contratransferência e de seus desejos sobre o paciente dentro da relação analítica, para permitir que a transferência continue operando. Isso significa que o psicanalista deve atuar como mero suporte da transferência, não desejando nem mesmo a melhora ou a cura do analisando. Pois, quando o analista se recusa a satisfazer as demandas egóicas do sujeito, ele permite que ele viva a falta, levando-o a repensar a sua posição diante da própria história, do Outro, e a responsabilizar-se por suas escolhas, desalienando-se do desejo do Outro. Então, silenciar diante de uma demanda de conselho ou direcionamento ou, ainda, não atender a um desejo de aprovação ou de ser amado permite manter a libido do paciente mobilizada para o trabalho da associação livre, impedindo que o sintoma encontre uma satisfação secundária na nossa figura e que esse inconsciente seja silenciado.

          Para Lacan, portanto, cabe ao analista sustentar esse (lugar de) vazio para que o analisante possa projetar em nós os enigmas a respeito de seu próprio desejo, isto é, questionar o que ele deseja para si próprio e bancar esse desejo: “A abstinência é a recusa de responder à demanda para, justamente, dar lugar ao desejo” (Lacan, 1960-1961). Dessa maneira, ele estabelece que o psicanalista dirige o tratamento, não o sujeito dentro do processo analítico.

           Reunindo os saberes de Freud e Lacan às concepções contemporâneas sobre abstinência, é possível questionarmos: como manter a opacidade do espelho freudiano na era das redes sociais, onde o paciente pode descobrir (ou intuir) muitas informações profissionais – e pessoais – sobre nós, psicanalistas, através de uma busca rápida na internet?

          Na atualidade, sustentar a abstinência discursiva torna-se ainda mais relevante para a continuidade da relação transferencial. Isso implica não tomar como evidente o sentido que o paciente atribui às informações que encontra sobre o analista nas redes sociais, mas abrir espaço para investigar o que essas descobertas mobilizam em sua fantasia. Assim, responder mensagens fora do horário da sessão, remarcar atendimentos e manter-se seguidor das redes sociais do paciente são questões que nos implicam eticamente. Analisar qual seria a demanda escondida por trás do pedido do paciente e, a partir dessa hipótese, ajudá-lo a elaborar a falta são processos-chave para pensarmos a clínica contemporânea.

          É preciso tomar cuidado, também, para não nos engessarmos em nome da ética e acabarmos nos assemelhando à caricata figura do analista de pedra, que nada responde. Essa postura rígida pode se relacionar, inclusive, com a nossa própria dificuldade em lidar com aspectos egóicos e acabar sendo revivida pelo analisante como um abandono traumático a depender de sua estrutura clínica e de vivências anteriores de extremo desamparo: “Para que o analista possa sustentar a transferência, ele deve pagar com sua pessoa, na medida em que a abstinência o despoja de suas próprias reações egóicas” (Lacan, 1958).

           Ainda, há que se considerar que o perfil do paciente que procura análise é bem diferente daquele da época de Freud, tanto nas condições sociológicas e econômicas quanto, principalmente, em relação aos conhecimentos que o analisante tem sobre a própria psicanálise. Além disso, pelo fato de as análises acontecerem com menor frequência semanal, o processo tende a durar mais tempo, criando mais liberdade entre psicanalista e analisando, mas também mais inseguranças por parte do analista quanto à manutenção das regras fundamentais da psicanálise, como a abstinência:

(…) a maioria dos analistas atuais trabalha de uma forma algo mais descontraída, o clima da análise adquiriu um estilo mais coloquial, com uma menor evitação de aproximação (…). Há um certo abrandamento do “superego analítico”, de modo a possibilitar que o analista possa sorrir, ou rir, durante a sessão, responder a algumas inócuas perguntas particulares, dar algum tipo de orientação, evidenciar algum tipo de emoção, não ter pavor de que apareça alguma fissura no seu anonimato. (…) O significado maior da necessidade atual do cumprimento da regra da abstinência por parte do psicanalista, inclina-se mais para os riscos que estão ligados à configuração narcisista deles próprios. (…) Deve ficar claro que, não obstante a “abstinência” aludir diretamente à suspensão do desejo do analista, isso não significa morte do desejo, a desistência de desejar e, da mesma maneira, não significa que ele vá anular os desejos do analisando” (Zimerman, 1999).

          Dentro desse cenário, se atentar às gratificações que o paciente pode nos ofertar e ao prolongamento do tratamento – como um reflexo do nosso desejo inconsciente de alcançar a cura de um analisante – evita a atrofia da autonomia e da autenticidade do sujeito que está diante de nós.

         Sustentar a regra da abstinência hoje em dia não é ser um analista de pedra, mas ter a coragem ética de desacelerar o tempo da urgência, permitindo que o paciente encontre, na palavra, outras possibilidades de elaboração para aquilo que antes poderia ser vivido apenas como ato impulsivo.

         Em uma sociedade que oferece objetos de consumo e respostas prontas a todo instante, sustentar a falta é também preservar um espaço para que o desejo possa se manifestar. Diante do imediatismo contemporâneo, a psicanálise continua apostando no tempo, na escuta e na possibilidade de que algo do inconsciente encontre lugar para falar.

 

REFERÊNCIAS

ARROSI, Kellen Evaldt; SILVA, Milena da Rosa. A escuta em psicanálise: abstinência e neutralidade em questão.Psicol. clin., Rio de Janeiro, v. 34, n. 1, p. 121-143, abr. 2022. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652022000100007&lng=pt&nrm=iso. Acesso em 20 ago. 2026.

CONTE, Bárbara de Souza; HAUSEN, Denise Costa. Escuta: quando a abstinência se constitui. Disponível em: https://www.fundamentalpsychopathology.org.br/wp-content/uploads/2019/09/escuta_quandoo_a_abstinencia_se_constitui.pdf. Acesso em 22 ago. 2026.

FREUD, Sigmund. Recomendações ao médico que pratica a psicanálise [1912]. In: Obras completas, volume 10: Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre a técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

_______________. Observações sobre o amor de transferência [1915]. In: Obras completas, volume 10: Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre a técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

_______________. Caminhos da terapia psicanalítica [1919]. In: Obras completas, volume 14: História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), Além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios de seu poder [1958]. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

______________. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

______________. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

______________. O seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

SIGAL, Ana Maria. A abstinência.  Disponível em: https://sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/boletimonline/2025/04/11/abstinencia/. Acesso em 20 ago. 2026.

ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – uma abordagem didática. Porto Alegre : Artmed, 1999.

 

 


Texto escrito por: 

Francine Pszepiura. Psicanalista e psicóloga. Pós-graduanda em Sexologia Clínica (FAMEESP), pós-graduada em Psicanálise e Análise do Contemporâneo (PUCPR) e em Psicologia Clínica (UniCuritiba). Graduada em Psicologia (Universidade Positivo) e em Comunicação Social – Relações Públicas (UFPR). Psicanalista formada pela Escola de Psicanálise de Curitiba (EPC). Supervisora de psicanalistas e psicólogos em início de percurso, psicanalista e docente da EPC.

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Uma resposta

  1. Que reflexão importante e necessária para pensarmos a clínica em nossos tempos! A abstinência segue nos convocando a uma posição ética diante das demandas de imediatismo, exposição e disponibilidade que atravessam a vida contemporânea. Sustentar a escuta também exige de nós uma reflexão permanente sobre o lugar que ocupamos na transferência e sobre os limites que dão contorno ao trabalho analítico. Parabéns, Francine, por contribuir e qualificar nosso espaço do blog, pelas referências compartilhadas, pela contribuição e pela delicadeza com que aborda uma questão tão fundamental para a nossa prática!

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