Do sonho
Alba conta-me sempre seu sonho pela manhã
Alba dorme para ela:
Alba sonha para mim.
O conceito de “eu” dentro do pensamento ocidental vai surgir a partir de Descartes, na Modernidade, mais exatamente através do cogito cartesiano presente na 2ª Meditação de Descartes, onde ele propõe uma noção de “eu consciente”, através de experimentos que ele faz com um pedaço de cera. E a noção de eu antes de Freud, a meu ver, é importante para nos localizar acerca dos sonhos.
A conclusão a que Descartes chega, parte de uma analogia por comparação, numa investigação que ele empreitará através das características de um pedaço de cera: ora derretida, ora em sua forma “original”, o que lhe permitiu, também, pensar nas muitas outras possibilidades de mudança de “um corpo”, que ele, talvez, nem poderia mensurar através dos sentidos. E que haveria, ainda, a possibilidade de nem existirem tais coisas que ele desconhecia, pois no momento, ele considerava conhecer apenas a si mesmo como sendo o que era, um ser pensante e não inventado, como pudessem ser, talvez, todas as coisas, pois mesmo que fosse esse o caso, de inventar as coisas e o mundo ao redor, uma coisa ele não poderia ter inventado, e era esse “espírito” que podia lhe nortear acerca do que seria “a verdade”: se algo está sendo inventado, se algo está sendo produzido, “alguém” está produzindo, ou inventando, e portanto, poderia então, concluir que haveria um “eu que produz coisas”, e que tem capacidade de imaginar – produzir algo interior, que se expressa de algum modo no exterior – pois é lógico pensar que, existindo tal imaginação, tal produção e fantasia, é porque existe um “eu”, um alguém, um ser, um espírito, capaz de tais feitos. E é por esse poder de julgar as coisas, de imaginar, por poder sentir e mover-se, que ele deduz que sua capacidade de conhecimento e discernimento se dá através de algo intangível, se dá pelo seu “espírito”, que é o que lhe permite reconhecer os corpos e discernir as diferenças e similaridades entre um e outro corpo. E o espírito, para ele, pode ser comprovado pela produção autônoma que se apresenta durante o sono, e que conhecemos pelo nome de sonho.
Esse conceito de “eu consciente” vai aparecer também em outras correntes filosóficas, como por exemplo a corrente Empírica, que entende esse “eu consciente” como o mediador das sensações externas que recebemos do mundo externo através da sensibilidade. Mais tarde, com Kant, esse eu passa a ser um eu que organiza toda experiência sensível, e com isso, também, complexifica seu papel, que passa a ser um “eu transcendental”.
Esse discurso filosófico acerca do eu é o que vai embasar a psicologia médica do século IXX através de uma apropriação desse conhecimento filosófico, que logo mais será transformada no conceito de uma psicologia fisiológica, ou seja, esse eu até então mais conceitual e abstrato, ganha um corpo, ele passa a residir no cérebro, mas parte desse eu tem uma parte não-consciente: é através de tal teoria que posteriormente Freud vai sofisticar esse conceito dentro da Psicanálise através do conceito de inconsciente.
Ao tomar contato com a obra de Walter Benjamin, através das suas “imagens de pensamento”, minha primeira intuição foi de que as imagens de pensamento me remetiam ao mundo onírico. Benjamin foi um pensador-filósofo que teve um esforço importante em estabelecer uma separação de seu pensamento em relação ao pensamento europeu hegemônico circundante em sua época, o que desemboca num resgate da importância do onírico através do trabalho de conceitos filosóficos usando uma linguagem própria, qual seja, a linguagem das imagens.
Os antigos acreditavam que os deuses falavam através de imagens nos sonhos. As imagens são uma linguagem utilizada desde antes de qualquer conceito de linguagem, antes de se poder saber o que era uma linguagem já havia a tentativa de se comunicar – a arte rupestre, que é considerada uma forma de linguagem e data de aproximadamente 40.000 a.C., nos dá notícias disso.
A linguagem falada é uma tentativa – quase sempre falha – de colocar em palavras o que pensamos e sentimos. A forma que entendemos e conceituamos o mundo passa necessariamente pela palavra, mas antes da palavra tem a imagem: pois ao que parece, não é possível pensar sem imaginar, nem imaginar sem pensar. Uma ideia é uma imagem, e para Benjamin a ideia tem o sentido platônico, ou seja, uma ideia é uma realidade em si mesma, uma realidade-estética, que sendo linguagem, “fabrica uma realidade”, portanto, estética enquanto linguagem própria não submetida à uma epstemologia, e dentro desse entendimento a percepção é que é protagonista no papel da linguagem. As imagens de pensamento não são exemplificações de ideias filosóficas, elas seriam uma apresentação dessas ideias, e por isso mesmo, as imagens de pensamento não seguem uma estrutura lógica, mas acontecem como experiência (assim como os sonhos), como uma percepção de um “quadro conceitual”, que acontece numa grande obra que se dá na intersecção entre passado, presente e futuro.
Há em seus escritos uma elaboração conceitual que irrompe no resgate de um imaginário que foi perdido diante de uma excessiva consideração da razão. Nos seus textos, Benjamin trabalha numa (re)construção de conceitos e ideias que perpassa reconhecível em sua obra com uma mimética muito peculiar, donde animados e inanimados ganham espaço de construção narrativa – o que mais tarde possibilitaria enxergar outras perspectivas históricas, ouvir vozes que foram silenciadas e excluídas da “versão original da história”, vilipendiadas em prol de uma manutenção de poder; tomar conhecimento dos fatos por outro prisma, entender que não existe “A história”, mas sim, versões apresentadas dos fatos, e que não sem motivos, tende a mostrar apenas a versão exposta pelo ‘vencedor-opressor’, pelo colonizador que passa então a justificar seus feitos e toda destruição deixada atrás de si como uma consequência inevitável da evolução e do progresso na marcha da história, e que entre outras coisas questiona veementemente a ideia difundida de progresso.
A temática dos sonhos, ou, o caráter onírico que aparece em sua obra, dá importância significativa aos sonhos como ferramenta na sua composição estético-imagética, que nos chega entremeada de um ludicismo-crítico que reflete profundamente através da criação de imagens humano-natureza, esse desligamento do ser humano com o seu entorno, e que vai causando ao longo da história uma imensa alienação do ser humano com seu meio, tendo como consequência uma coisificação, tanto da natureza, quanto dos outros seres viventes , e que coloca no centro a questão: a natureza conta uma história ou ela é a história?
As imagens de pensamento, assim como os sonhos, demonstram uma capacidade de resgatar imageticamente a “aura de uma época”, abrindo assim a possibilidade de uma análise através do tempo pelos bastidores, por assim dizer. Há para Benjamin um estado onírico do coletivo (do coletivo burguês), que lhe causa interesse em entender e interpretar, até mesmo como perspectiva de compreensão histórica – “Cada época sonha a seguinte.”
O “pensamento onírico” como meio de interpretar, a “imagem de pensamento” como forma de narrar: tanto a imagem de pensamento, quanto os sonhos têm acesso “ao tempo” a partir de uma concepção muito semelhante, onde passado, presente e futuro são costuras intercambiáveis dum mesmo tecido. As imagens de pensamento proporcionam uma “viagem no tempo”, muitas vezes atualizando imageticamente o passado para o momento presente: o momento em que algo é pensado é re-vivido e re-sentido no momento presente, pois de fato só podemos sentir no presente. Ou, dizendo de outra forma, o que se considerava até então passado, ou seja, um relato dos fatos e de acontecimentos vividos, passa a ser considerado também acontecimento vívido em todo tempo em que se possa atualizá-lo dialeticamente através de uma narrativa – a imagem dialética é aquela que dialoga com o interlocutor, e esse também é um papel dos sonhos: atualizar o trauma na tentativa que ele se resolva.
Podemos pensar aqui naqueles sonhos que vez por outra não lembramos, mas registramos: não lembramos do conteúdo exato do que sonhamos, mas guardamos vividamente ao acordar o acontecido em sonho, o ‘sentir do sonho’, que muitas vezes nos acompanha no decorrer do dia, como fosse um fato ocorrido em vigília, influenciando, inclusive, nosso estado de humores. Ousaria dizer, inclusive, que alguns sonhos são tão reais enquanto experienciação sentida que podem mesmo nos acompanhar por muito tempo, tendo um papel, até mesmo, de “demarcador subjetivo” em compreensões profundas sobre um fato acontecido, ajudando na elaboração e podendo mudar os rumos de uma trajetória de entendimento da vida, porque a experiência onírica, a sensação deixada pelo sonho, algumas vezes é tão vívida (ou até mais) quanto as que se vive em vigília, como se a lembrança do sonho fosse mesmo a lembrança de um fato, porque para o psiquismo não há diferença, o registro é factual. O sono faz renunciar o controle propiciando aos sonhos uma realização de desejos tão ocultos e desconhecidos ao sonhante que dificilmente poderiam se manifestar de outra maneira. Essa linha intercambiável entre passado-presente e presente-passado dá passagem a esse “não-mais-ser” presentificando elementos que já não-são, ou que já-são-outros, possibilitando ressignificações e elaborações na construção narrativa de sentidos de antes, agora e depois, pois no sonho as representações parecem não respeitar uma sequência cronológica ao sonha-dor. Tenho chamado esse movimento onírico-imagético de dialética temporal.
Ao acordarmos de um sonho recordamos dos recortes de fatos, de imagens que são elementos de (de)composição surgidas no sonhar. Nem sempre lembramos de sonhos completos, ou inteiros. Lidamos com os restos do que sonhamos, com fragmentos que condensam uma gama de sentidos passíveis de inúmeras construções, pois como já dito acima, mesmo os sonhos “não lembrados” podem insurgir num efeito de estranhamento: a memória, o registro do que sonhamos está lá em algum lugar, sentimos a “aura” do sonho sonhado, sentimos na vida desperta o afeto do seu resto. O que foi sentido em sonho, ainda que não seja possível descrever completamente quando em vigília, ou conciliar logicamente, continua reverberando: a memória é registro, nem sempre lembrança.
Há uma imagem de pensamento, de Walter Benjamin, que se chama “Sala de café da manhã”, nela, Benjamin apresenta uma crença de uma tradição popular “que nos diz que não se deve contar sonhos de manhã em jejum.”, ao que ele explica que, “de fato, quem acorda continua, nesse estado, ainda sob a ação do sortilégio do sonho”, a experienciação do sonho tem raiz a partir do corpo e é no corpo que possui desencadeamentos, que guarda em si esses registros do que foi experenciado oniricamente; e dá simbolismo ao café-da-manhã como coisa-limite entre as diferentes formas de experencia no corpo e do corpo, pois de fato não há uma separação de experiências psíquicas e corporais em estado onírico ou de vigília, o que há é uma percepção diferenciada dessas instâncias.
A tradição popular mencionada por Benjamin diz que contar os sonhos de manhã em jejum, compartilhar os sonhos antes de comer ou beber, pode trazer consequências negativas, como perder o significado do sonho, ou até mesmo de que aconteça algo de ruim anunciado pelo sonho. Contar seria algo como “trair o sonho e correr o risco de sofrer sua vingança”. Que na minha interpretação da interpretação de Benjamin, tal traição seria que, ao contar o sonho, a descrição feita através do uso das palavras não conseguiria abarcar toda experiência do sonhante, ou ainda, dessa tradução feita entre linguagens – imagens oníricas traduzidas em palavras – trairia o sentindo amplo da experiência onírica, quero dizer, ao buscar traduzir em palavras, dando sentido outro, de pensamento lógico, tal experiência se empobreceria (o que me remete ao provérbio: “tradução é traição”). Me chama atenção, além das semelhanças entre imagens de pensamento e os sonhos, é que é como se: para Freud dormíssemos para sonhar; para Benjamin, sonhamos para despertar.
E esse despertar aparece no conceito criado por Benjamin de “inconsciente coletivo”, que ele entende como sendo uma espécie de reservatório de imagens que gera um imaginário paradoxal que recebe impulsos do novo remetendo a um “passado primevo”, e que guarda registros da “aura” de uma época, daí seu o interesse num despertar da consciência adormecida através do “secreto” que habita na linguagem e nas imagens. E para mim essa ideia de inconsciente coletivo que se constrói e guarda registros nas imagens e na linguagem remete inevitavelmente ao diálogo com a psicanálise freudo-ferencziana (pensando aqui principalmente no texto Confusão de Línguas, do Ferenczi).
A criação de um conceito sobre inconsciente coletivo, que dá aos sonhos um status de relevância dentro de uma perspectiva histórico-filosófica, nos dá concretude para poder considerar Walter Benjamin um teórico dos sonhos. A intencionalidade de narrar suas imagens-sonhos “salvando suas ruínas do esquecimento” é uma forma de testemunhar a história de si e a história coletiva, o que me faz pensar em Ferenczi e a sua clínica do testemunho, e me coloca a gestar outra questão: seriam os sonhos uma forma de auto-testemunhar o trauma? Mas isso é coisa para outro texto e momento…
Mas ainda sobre a minha intuição inicial: seriam então as imagens de pensamento nascidas no mesmo lugar onde nascem os sonhos? Me parece que sim – “O sonho e o pensamento são dois lados diferentes de uma mesma coisa – o reverso e o anverso, o sonho constituindo o lado em que a trama é mais rica, pois é mais frouxa; o pensamento, aquele em que a trama é mais sóbria, porém mais apertada.”
O sonho sempre nos dá notícias de algo que é nosso, mas além de ser nosso, também traz notícias de nós em relação a quem, ou para quê ‘endereçamos’ o sonho. Nós só temos consciência do sonho em vigília. O sonho é um modo próprio de pensamento, onde o desejo, ou a realidade do desejo, se expressam mais livremente. O sonho é uma espécie de “salário psicológico”, e o conteúdo que aparece disforme, ainda assim, na sua disformia, dá notícias sobre o verdadeiro segredo do porquê algo precisa assumir tal forma. Alguns sonhos nem gostaríamos de ter. Outros não compreendemos. Mas o sonho sempre carrega uma mensagem do inconsciente. O sonho é sempre de quem sonha, é sempre do sonha-dor. A Filosofia surge da contemplação e do espanto diante do que não se sabe, do que se pretende compreender. A Psicanálise vai dar corpo, nome e significado ao fenômeno. Contemplar os sonhos é contemplar o mistério. Contemplar o mistério é poder renovar o espanto.
Referências
BENJAMIN, Walter, Rua de mão única – Infância berlinense: 1900, edição e tradução João Barrento, Belo Horizonte, Autêntica editora, 2013.
BRETAS, Alexia, Imagens do pensamento em Walter Benjamin, Artefilosofia, Ouro Preto, nº 6, abril 2009.
FREUD, Sigmund, A Interpretação dos Sonhos, 1900.
MATTOS, Manuela Sampaio, O inconstiente Coletivo de Walter Benjamin pode ser lido como pós-colonial?, Tangências do Indizível: Festschrift em homenagem a Ricardo Timm de Souza.
MATTOS, Manuela Sampaio, Sobre sonho e despertar nas passagens de Walter Benjamin: um ensaio, Cadernos Walter Benjamin 20, janeiro 2020.
Texto escrito por Anita Regina Bento – Bacharelado em Filosofia – UFPR. Pós-graduanda em Psicanálise – FACOP. Percurso em Psicanálise pela T.13 da EPC.