No meio psicanalítico (e não só nele) observamos muitas suposições e curiosidades sobre os psicanalistas.
Onde habitam os psicanalistas?
Talvez na análise, na sua ou na do outro; nas horas vagas, em uma casa… pelo menos eu espero que sim.
Do que vivem?
Da escuta!
Onde os psicanalistas se escondem?
Nos livros!
Eu sei, existem questões bem mais complexas…
Análise é terapia? O analista é um psicoterapeuta?
Nesse caso, talvez seja melhor perguntar: o que representa essa diferença diante do sofrimento humano?
Os psicanalistas podem ler a mente?
Era bom, era… mas não! O analista escuta o inconsciente — e, para isso, você vai ter que falar. E muito!
Ser psicanalista é uma fantasia?
Pois é, até pode ser. Mas o que é ser alguma coisa que não envolva fantasia? O importante é transmitir a psicanálise, observar seus efeitos, perceber quantas pessoas estão conseguindo se ouvir por meio das técnicas psicanalíticas.
Nessa busca infinita por uma definição, o que é, afinal, fazer (ou viver) a psicanálise?
Ampliemos uma definição: sim, o analista se faz no divã, mas não se pode abrir mão dos complementos que estão na supervisão e no estudo teórico.
Algo é muito palpável para o psicanalista:
– os estudos não se encerram ao longo do percurso;
– as análises nunca serão suficientes;
– a supervisão é imprescindível;
– é preciso gostar de ler;
– o aprofundamento teórico será necessário;
– é fundamental reconhecer os próprios processos e os processos dos analisandos.
Não se esqueça: a psicanálise não mora nos rótulos, nem nas definições. Ela habita o que não se sabe, aquilo que não se diz. Mora no desejo desconhecido ou reprimido. As definições são apenas uma necessidade humana de pertencer a algo, uma continuação do processo de identificação do sujeito. No fim, não se trata de uma busca sobre ser, mas sobre pertencer.
Os psicanalistas se envolvem com particularidades, com infinitas singularidades. São trabalhadores do mundo da subjetividade, absorvidos por horas de escuta, manejando transferências, lidando com as próprias resistências, sustentando a contratransferência. Nesse caminho de aprendizagem inesgotável, rico em experiências, há algo do qual não se pode abrir mão (guarde como uma oração): ética, associação livre e inconsciente.
Não corra pela psicanálise em busca de uma definição.
Caminhe, questione, aprenda, sinta e devolva.
Texto escrito por Carina Camacho. Psicanalista e Professora. Graduada em História e graduanda em Antropologia. Possui especializações em Psicanálise e Ensino a Distância. No campo da transmissão, atua com linhas de estudos voltadas a Sándor Ferenczi e Sigmund Freud.