OLENKA: Uma (re) leitura psicanalítica

O texto apresenta uma leitura psicanalítica de Olenka, de Anton Tchekhov, mostrando o amor como sustentação psíquica: a protagonista se constrói a partir do outro e enfrenta o vazio quando o vínculo se rompe.
IMAGEM OLENKA -

Anton Tchekhov (1860–1904) foi médico e um dos nomes decisivos da prosa russa moderna. Sem recorrer a grandes reviravoltas, seus contos trabalham a vida comum por dentro: a fala cotidiana, o detalhe aparentemente banal e, sobretudo, aquilo que fica subentendido. Daí a força da sua escrita econômica e irônica, que prefere a ambiguidade a uma moral explícita e deixa o leitor diante de finais em aberto, onde o “sentido” não vem pronto. Essa maneira de narrar — mais atenta ao clima e às inflexões psicológicas do que à ação — ajuda a explicar por que Tchekhov segue sendo uma referência central para o conto moderno.

Publicado em 1899, Olenka (também conhecido como A Queridinha) está entre os contos mais discutidos de Tchekhov justamente porque não entrega uma leitura única da protagonista. De um lado, a narrativa pode ser lida como ironia diante de uma mulher que não sustenta ideias próprias e passa a repetir a voz de quem ama; de outro, o mesmo traço abre uma leitura menos acusatória, em que essa dependência aparece como efeito de um mundo patriarcal que estreita sua margem de autonomia. É nessa oscilação (entre crítica ao esvaziamento identitário e reconhecimento de um amor marcado por devoção e cuidado) que se apoia a proposta deste texto: observar como o vínculo amoroso funciona, para Olenka, como suporte psíquico e como lugar de construção (e perda) de si mesma.

O conto sugere uma organização do desejo em que o amor funciona como necessidade de preenchimento. Olenka aparece desde o início como alguém que “não podia viver sem amar alguma pessoa”. O vínculo soa menos como troca entre dois sujeitos e mais como sustentação: quando há alguém a quem se ligar, sua vida ganha direção; quando esse alguém desaparece, sobrevêm o esvaziamento e a desorientação (“já não tinha opiniões”).

Essa pessoa amada funciona como ponto de referência: é a partir dela que Olenka organiza o que deseja, o que pensa e até o que consegue dizer. Por isso, quando o apoio falta, ocorre o colapso — “um vazio completo no seu coração, no seu cérebro e no seu pátio”.

Um dos efeitos mais visíveis dessa dependência é a identificação. Olenka não apenas ama: ela passa a falar a partir do outro, como um “eco”, sustentando um eu que se monta por empréstimo. Isso aparece no modo como assimila assunto, vocabulário e tom de cada parceiro: com Kukin, repete as queixas sobre o teatro; com Pustovalov, a vida se fecha na madeira e na rotina; com o veterinário, entram a inspeção e a doença; e, com Sasha, reaparecem as fórmulas escolares (“Ilha é uma porção de terra…”), agora ditas outra vez “com convicção”.

O próprio conto nomeia essa fusão de vozes: “As opiniões de seu marido eram as dela”. Por isso, quando o vínculo se rompe, não há exatamente uma libertação — há um intervalo de silêncio e desorientação, como se lhe faltasse não só companhia, mas também um ponto de apoio para organizar o pensamento.

Nesse processo, aparece também a idealização e a moral “do outro” como forma de estabilizar a vida em comum. Com Pustovalov, a vida de Olenka fica mais regrada e religiosa, e as diversões passam a ser vistas com desconfiança. Um detalhe revelador é o plural conjugal (“Vanichka e eu nunca vamos ao teatro”): a recusa do entretenimento já sai pronta como valor “do casal”, embora venha do ideal do parceiro, o que dá estabilidade e alivia a angústia, mas também diminui o espaço para um desejo realmente dela.

Quando o afeto muda de endereço, do marido ao filho, o conto sugere uma nova forma de sustentação psíquica. Quando o amor conjugal deixa de funcionar como apoio, Olenka desloca o investimento libidinal para Sasha, seu filho. A relação ganha um tom materno e vira um novo jeito de dar sentido à vida, descrito como um amor mais estável e “desinteressado”.

Com Sasha, ela volta a ter assunto, rotina e algum futuro imaginável — e a própria fala se firma de novo. No período de solidão, o conto formula com clareza o tipo de amor de que ela precisa: “O que ela precisava era de um amor que absorvesse todo o seu ser, toda a sua razão, toda a sua alma”. E o motivo do “telegrama” reaparece para lembrar que essa estabilidade é frágil: basta a ameaça de separação para o medo da perda tomar conta outra vez.

Olenka vai se compondo por identificações sucessivas, e o texto insiste em mostrar o custo disso. A frase “o pior era que já não tinha opiniões” não descreve apenas um traço de personalidade: ela marca o instante em que, sem o outro, o cotidiano perde contorno. Nesse sentido, o amor aparece menos como encontro e mais como uma engrenagem que mantém a vida psíquica em funcionamento.

Se aproximarmos o conto de uma chave psicanalítica, a dependência afetiva fica difícil de ignorar. Olenka parece precisar de um laço para se manter minimamente estável: é na presença de alguém que ela encontra forma para o que sente, pensa e diz. Quando esse alguém some, o texto anota apatia e desnorteio — como se faltasse até “matéria” para a fala. Não por acaso, após cada perda ela procura outro apoio (Kukin, Pustovalov, Smirnov e, por fim, Sasha). E o vínculo, além de afetivo, funciona como regulador do discurso: sem o outro, ela chega a perguntar “Mas, Volodichka, de que ‘devo’ falar, então?”, expondo a dependência de um tema, de uma direção e de uma voz que não sejam apenas dela.

Com Sasha, a dependência não desaparece, mas se desloca para o registro materno: o menino passa a funcionar como continuidade e promessa de futuro. Já o retorno do “telegrama” recoloca a separação como ameaça constante, como se a estabilidade dependesse, o tempo todo, de que o laço não se rompa.

Lido hoje, o conto chama atenção justamente por não “fechar” Olenka em uma chave única: a mesma entrega que pode soar cômica ou passiva também se deixa ler como resultado de um espaço social estreito para a autonomia feminina. O texto volta, com insistência, a duas imagens: a de uma identidade que se monta pelo outro e a do vazio quando esse outro falta. Assim, amar, para Olenka, não é só um sentimento; é o modo que ela encontra de existir, de ter assunto, rotina e chão. Por isso cada separação interrompe mais do que um romance: interrompe o seu mundo.

 

Referências

TCHEKHOV, Anton. “O coração de Olenka”. In: Os russos: antigos e modernos. Trad. Rachel de Queiroz. Coleção Contos do Mundo. Rio de Janeiro: Leitura, 1944.

 


Texto escrito por:

  • Angelo Oliveira Salignac. Psicólogo Clínico, Perito Criminal Federal aposentado e, no meio do caminho, o sonho: degustando o percurso em psicanálise com a Escola de Psicanálise de Curitiba.

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